Começo a escrever esta série de artigos no dia em que no Parlamento Português uma maioria de deputados aprovou a despenalização e regulamentação da eutanásia. Portugal torna-se assim um dos poucos países do Mundo a inscrever no tecido legislativo o direito a morrer. Sinais de progresso, humanidade e liberdade clamam os proponentes. Será que é mesmo assim?

Antes de continuar faço uma declaração de interesses. Tenho 42 anos, portanto a meio da expectável esperança de vida. Casado, 5 filhos. Filho e neto. Acompanho e acompanhei familiares em fim de vida. Profissional de saúde. Cristão.

Ao reflectir sobre o assunto não quero fazê-lo exclusivamente de uma perspectiva religiosa. A fé condiciona, naturalmente, a minha cosmovisão. No entanto, a abordagem às questão sobre a vida e a morte – aborto e eutanásia – transcende os ideais dos crentes. Muitos ateus, agnósticos ou desligados da fé chegam às mesmas conclusões, embora, necessariamente, fazendo uso de um argumentário diferente, sobretudo em relação às verdades fundamentais que sustentam cada posição.

Nesta série proponho-me reflectir sobre vários aspectos do problema. Qual o valor e significado da vida? O que é a morte e porque nos assusta tanto? Quem detém o poder de decisão? Que implicações tem a moderna dessacralização da vida? Quais as respostas sociais e culturais que devemos promover? Qual o papel da Igreja nestas questões?

O meu desejo é que este singelo esforço de reflexão te conduza a pensar pela tua própria cabeça e a agir em convicção.

A longa sombra da Morte

“Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.” (Salmos 90:12)

O Homem é o único ser ciente da sua finitude. Os que se dedicam à ciência – antropólogos, paleontólogos, e outros – concordam que uma das marcas distintivas do Homem em relação a outros animais é a sua consciência de que vai morrer. Diz a sabedoria popular que na vida só há uma coisa de que podemos estar certos – a Morte. Vivemos a vida toda sabendo que um dia a nossa existência terrena chegará ao fim. Partiremos como todos os outros que nos antecederam. Este futuro inexorável lança uma sombra sobre toda a nossa vida. É por causa da consciência da morte que nos interrogamos sobre o que poderá vir depois, e sobre o sentido da vida. É por causa dela que fazemos planos sobre o futuro. Que cercamos de afecto o leito dos que partem. Que edificamos e visitamos memoriais dos que partiram. Apesar disso, como diz Walter Osswald, “essa certeza não adquire, curiosamente, carácter pessoal: sei que todos havemos de morrer, o que implica que terei de morrer, mas tal conhecimento continua a ter natureza abstracta, não relacionada comigo, quase como as certezas que dizem respeito às verdades cósmicas; sei que a Terra gira em torno do Sol, e que a Lua é um satélite da Terra, mas essas certezas não fazem parte da fruição que tenho daquele dia de Verão perfeito, com o seu glorioso pôr-do-sol, ou do gozo estético de uma noite de lua cheia.” (Walter Osswald, Sobre a Morte e o Morrer, 2013, FFMS) Quer isso dizer que não andamos sempre a pensar na Morte! Pelo contrário, fazemos grande esforço em roubar-lhe o aguilhão.

O distanciamento emocional acerca da nossa própria morte é quase um mecanismo de sobrevivência. Sem isso ficaríamos tolhidos de medo à espera do dia e da hora, que ninguém sabe quando será. Ainda assim, todos desejamos uma boa morte. A leitura dessa expressão – “boa morte” – é multidimensional. Significa uma passagem sem sofrimento, tranquilamente durante o sono. Ou, que se teve uma vida bem vivida onde nada ficou por fazer ou dizer. Ou também, a paz que se acalenta no encontro com o desconhecido que vem depois. O desconforto quando damos de caras com ela, no entanto, revela quão impreparados estamos.

A Morte é, na crendice popular em boa medida alimentada por um obscurantismo religioso, a figura sinistra de capa negra e foice longa que, insaciável, leva consigo quem quer, quando quer. Muitos buscam na religiosidade as respostas para o desconhecido, fazendo dela um deus que deve ser amansado em troca de uma boa partida. Outros, considerando a imprevisibilidade do tempo restante optam pelo hedonismo. A máxima Carpe diem é o seu lema. O progresso científico e tecnológico alimenta incessantemente esta ideia. A sensação inebriada de poder sobre as circunstâncias que ele traz é o combustível perfeito para uma vida entorpecida. O prazer, a fama, a felicidade tornam-se o sentido da vida. Como dizem as Escrituras: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.” (Isaías 22:13) No seu livro Homo Deus, Yuval Harari discorre: “O medo da morte arraigado à maioria dos seres humanos dará um impulso irresistível à luta contra a morte. A partir do momento em que tem a morte como certa, a maioria das pessoas prepara-se desde tenra idade para suprimir o desejo de viver para sempre ou protege-se definindo objectivos que o substituam. As pessoas querem viver para sempre e, como tal, compõem uma sinfonia “imortal”, buscam a “glória eterna” na guerra e chegam a sacrificar a vida para que as suas almas possam “desfrutar da felicidade sempiterna do paraíso”. Uma grande parte da criatividade artística, do empenho político e do sentimento religioso é alimentada pelo medo da morte.” (Yuval Noah Harari, Homo Deus – Breve História do Amanhã, 2018, Elsinore)

Há, contudo, um incómodo inconveniente. A morte chega sempre. O seu horror nunca é suavizado. A modernidade, com os avanços médicos por um lado, e, a transfiguração social causada pela destruição da família dita tradicional, afastou o momento da morte do contexto das nossas vidas. Hoje morre-se sobretudo sozinho. A medicalização da morte, priva os entes queridos da despedida, e desumaniza, de certo modo, quem parte. Yuval Harari sistematiza assim: “Os seres humanos morrem devido a uma falha técnica. O coração deixa de bombear sangue. A artéria principal entope-se com resíduos de gordura. As células cancerígenas espalham-se pelo fígado. Os micróbios multiplicam-se nos pulmões. E qual é a causa destes problemas técnicos? Outros problemas técnicos. (…) Não há nada de metafísico nisso. São apenas problemas técnicos. E para cada problema técnico há também uma solução técnica.” (Yuval Noah Harari, Homo Deus – História Breve do Amanhã, 2015, Elsinore)

Esta visão sanitária da morte diminui a sua dimensão humana e espiritual. Essa tendência combinada com o pensamento pós-moderno amplamente caracterizado pelo relativismo moral e do conhecimento, pelo individualismo, autoconsciência e autorreferencialidade, cria uma combinação explosiva. Somos tentados a vencer o grande inimigo proclamando o poder individual de decidir quando, onde e quem morre. Explica-se assim o entusiasmo celebratório de quem aplaude o aborto e a eutanásia como actos de liberdade, progresso e humanidade. Mas, será o aguilhão da morte a imprevisibilidade da sua chegada? Ter o poder decisório sobre o momento e o modo de morrer pode satisfazer qualquer anseio de sentido, propósito, dignidade ou felicidade?

A longa sombra da morte paira sobre todos nós. Como entendermos o seu significado influenciará o modo como vivemos, e o que entendemos por boa morte.

Pensando Biblicamente

As Escrituras falam amplamente sobre a morte, embora ao fazê-lo queiram apontar o caminho da verdadeira Vida. Isso fica claro no Salmo 90.

Moisés reflecte sobre a fragilidade da vida humana. Esta conclusão contrasta com as ilusões de imortalidade que permeiam o pensamento moderno. Ao colocar-nos como centro referencial de todas as coisas, perdemos a possibilidade de perspectiva. O que pensamos, sentimos, desejamos ou valorizamos encontra a razão e o fim em nós mesmos num ciclo infindável de cegueira.

Moisés conhecia e entendia bem essa realidade. Ele nasceu no Egipto. Foi educado em toda a ciência como filho da filha do Faraó. Ele cresceu numa cultura que fazia dos homens deuses, que celebrava a Morte nos rituais, no embalsamento dos corpos, nos incríveis túmulos que ainda hoje nos espantam. Um egípcio era em tudo superior a qualquer outro homem. Eles eram senhores, os outros nada. Decretaram o infanticídio dos recém-nascidos como aceitável. Despojavam-se dos fracos, inválidos e incapazes como inúteis. Os outros eram mercadoria, força de trabalho, serviçais ao serviço de um poder louco, sedento de glória, fama e imortalidade.

Esse sedutor engano está mais perto de nós do que julgamos. Tantas vezes ao longo da História, incluindo a recente, o cenário se repetiu. Hoje estamos cada vez mais perto de a reviver. O próprio Moisés, seduzido pela cultura onde cresceu, sentindo-se superior, julgou poder dispor da vida de outro, matando-o. Ele viria, mais tarde, a aprender que a mansidão é a verdadeira força – a entrega à vontade de Deus.

Foi talvez meditando nestas coisas que Moisés foi inspirado a compor este Salmo. Nele o Homem é comparado não ao seu semelhante mas, a Deus. Isso muda radicalmente a perspectiva sobre as coisas. Deus é eterno e imutável (vs.1-2). A nossa vida, em comparação, é como uma corrente de água, um sono, a erva do campo, um conto que se conta, canseira e enfado (vs.3-10). Não surpreende, pois, que o mais sábio dos homens tenha concluído sobre a nossa existência: “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” (Eclesiastes 1:2)

“Que visão fatalista!”, dirão alguns. Pelo contrário, está cheia de realidade. Não é verdade que sentimos a vida, o tempo a fugir-nos por entre os dedos? Não lamentamos tantas vezes que o tempo passa depressa? Que parece que foi ontem que éramos crianças, que casámos, que nasceu o primeiro filho, e, hoje, avós, velhos, cansados e saudosos de uma vida que se esfumou como vapor numa manhã de Inverno. Mesmo aqueles que se empenham em viver intensamente em busca de significado, da felicidade, ou de deixar a sua marca no mundo, hão-de reconhecer que o grande vazio existencial nunca está satisfeito. Há sempre fome de mais, e o medo de não conseguir fazer tudo antes de morrer.

O antídoto para este paradoxo não é olhar para dentro mas, para fora. Ou melhor, para cima! Nenhum Homem tem as respostas que precisamos. Deus tem! Foi Ele quem nos criou. É ele quem satisfará as nossas almas.

Para Moisés, a consciência da sua finitude era um convite à reflexão e à sabedoria. “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.” (vs.12) Ciente da futilidade de uma vida etérea que não escapa às ânsias da morte, o significado da existência e da vida deve ser buscado em Alguém maior do que nós. Os mortais encontram refúgio no Imortal. Os que são como a moinha que o vento espalha encontram propósito, contentamento, significado e imortalidade no Eterno.

Prática e Vida

Não vencemos o horror da Morte servindo-a como a um deus, nem ignorando-a, muito menos procurando dominá-la como a um escravo. Vencemos quando, reconhecendo a nossa finitude, olhamos para o Alto, para o Criador, e vivemos para Ele. Coram Deo é a expressão latina, usada na Vulgata, que capta esta ideia. Viver diante da face, ou na presença, de Deus. Viver Coram Deo é viver a vida inteira na presença de Deus, sob a autoridade de Deus e para a glória de Deus.