O exercício da disciplina

Lembro-me da primeira vez que tratei um dente a um paciente real. De repente, tudo aquilo que aprendemos na teoria, e, na prática em modelos de treino parece distante da realidade. Os primeiros casos tratados na faculdade são escolhidos para serem simples. Uma pequena cárie. Duas horas de tratamento! Ao pensar nisso não consigo deixar de sorrir, e, mesmo rir de mim. Hoje, faço o mesmo tratamento em pouco mais de 10min. Sem hesitar. Sem medo. Sem insegurança. O meu cérebro, as minhas mãos, os meus olhos estão agora bem treinados e avançam quase automaticamente enquanto converso ou penso em uma outra coisa. Não foi assim da primeira vez. A cada milésima de milímetro de avanço da broca, uma pausa. “Será que estou a fazer bem? Talvez seja melhor chamar o professor.”

Mesmo que nunca tenhas “atacado” o dente de alguém sabes do que eu estou a falar. Caminhar. Andar de bicicleta, de patins ou skate. Jogar à bola. Comer com faca e garfo. Ler. Escrever. Tudo quanto fazemos teve que ser aprendido. E, até que nos tornássemos excelentes em alguma coisa, submetemo-nos à disciplina.

O termo disciplina tem um significado muito amplo, variando de acordo com o contexto em que é aplicado. Pode significar o estudo de uma área do saber, como as disciplinas da escola. Pode ser o autodomínio e entrega apaixonada à perseguição de um objectivo, como os atletas que treinam intensamente e se privam de muitas coisas para alcançar o prémio. Pode ser o cumprimento das regras em vigor, que fazem funcionar um sistema, como no caso dos soldados que estão sujeitos ao código de conduta militar. Pode, numa dimensão de que não gostamos muito, significar a punição, correcção e restauração ao bom caminho quando fazemos asneiras.

Seja como for que olhemos para a disciplina todas as suas facetas se conjugam para produzir a excelência. Quando iniciamos uma aprendizagem fazemo-lo apaixonadamente. A novidade de tudo, o aprender algo novo é motivação suficiente para nos empenharmos. Mas, o entusiasmo inicial rapidamente esmorece, e logo, é necessário submeter a nossa vontade natural ao valor maior de aprender. Mais tarde, entendemos que não podemos escapar dessa regra, da norma, do modo certo de fazer as coisas. Aprendemos essa lição, por vezes, da maneira mais difícil, pela disciplina correctiva. Mas, quando a disciplina acaba o seu trabalho estamos melhores, mais fortes, mais capazes.

Na nossa busca pela intimidade com Deus a disciplina é um processo fundamental. A solitude, a meditação na Palavra, a oração, são coisas estranhas a nós. Antes de recebermos a Graça de Deus eram até mesmo impossíveis à nossa natureza caída. (Rm.3:10-12) Mas, em Cristo somos novas criaturas. (2Cor.5:17) Recebemos e participamos de uma nova natureza que tem fome e sede de Deus. (Sl.143:6) No entanto, precisamos aprender a buscá-lO.

Até que alguma coisa se torne um hábito é necessário repeti-la muitas vezes. Até que se torne tão natural como respirar, é necessário que o hábito se mantenha por muito tempo. Até que se torne fundamental, é necessário que não te desvies dela.

A prática da intimidade com Deus exige disciplina. Sem disciplina o teu destino é o descrito nas Sagradas Escrituras:

“Ele morrerá, porque desavisadamente andou, e pelo excesso da sua loucura se perderá.” Provérbios 5:23

Quero apontar algumas estratégias para te ajudar a ser disciplinado na prática da intimidade com Deus:

  1. Compromete-te. Firma um compromisso sério diante de Deus de tirar um tempo diário para estar a sós com Ele. Leva isso a sério. Não encares o tempo com Deus como a tarefa diária que podes eliminar se precisares de fazer alguma coisa. Olha para esse tempo como o único no teu dia inteiro em que não podes falhar. Constrói o resto do teu horário em torno disso e não ao contrário, tentando encaixar Deus no teu horário apertado. O tempo com Deus é muito mais importante do que qualquer outra coisa que tenhas para fazer. A força do teu compromisso definirá a intensidade da tua intimidade.
  2. Sê específico. Arranja um tempo certo para estar com Deus. Se mudares isso todos os dias, conforme a tua disponibilidade, é meio caminho para desistires. O atleta não vai treinar quando lhe apetece, quando se sente bem, ou, quando tem tempo. O seu horário está pré-estabelecido e ele não pode falhar. Se definires no teu horário o tempo para estar com Deus, mais facilmente vais estar disponível a essa hora. (Dn.6:1-11)
  3. Sê realista. Penso que um dos nossos problemas é sermos demasiado utópicos sobre este assunto. Queres parecer tão fiel que guardas logo 3 horas para estar com Deus todos os dias! Se tens possibilidades reais de tirar esse tempo, ou até mais, vai em frente! Mas, se sabes à partida que isso não vai ser possível estás a cavar o teu próprio fracasso. Se gostas de dormir até tarde não marques esse tempo às 6h da manhã. Nem à meia-noite quando já estás estourado e vais adormecer a orar. É melhor tirar 15 min. que cumpres diariamente em exclusividade com Deus do que 1 hora que não passa do papel.
  4. Presta contas. Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, disse que “Ninguém se disciplina sozinho. Os homens disciplinam-se em comunhão”. Junta-te a um grupo de irmãos na fé perante os quais tenhas de prestar contas. Escolhe de preferência pelo menos um irmão mais maduro e experiente para te orientar. Isso pode fazer a diferença entre desistir ou persistir.

O exercício da disciplina conduzir-te-á à maturidade. O que no começo pode ser uma difícil submissão da tua vontade a Deus, cedo se transformará no maior anseio e necessidade da tua alma. Ainda mais do que respirar. Deus será tudo para ti.

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Para mais sobre a prática da intimidade com Deus, clique aqui.

 

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A prática da intimidade com Deus – 8 bases bíblicas

Hoje reli uma reflexão que coloquei aqui há quase dois anos atrás. “Onde estás?” fala da busca de Deus por nós. Mas, a intimidade de Deus também é o desejo de todos os Seus filhos. Embora essa experiência seja sobretudo um processo espiritual, logo, não palpável, a Bíblia aponta várias estratégias que devemos empregar no nosso dia-a-dia para perseguir a comunhão vital com o Senhor. Eis algumas delas:

  1. Fica a sós com Deus. A intimidade nunca será possível sem comunhão. Sei bem que as vidas agitadas que temos não nos deixam muito tempo livre – embora isso seja quase sempre mais uma desculpa. Jesus é o nosso maior exemplo nisto. Mesmo quando rodeado por multidões que solicitavam eufóricas a sua atenção, ele muitas vezes se retirava para o monte para estar só. (Jo.6:1-15) Só com o Pai. (ler mais…)
  2. Sê disciplinado. Nenhum atleta desleixado será vencedor. Os vencedores são disciplinados. Toma o exemplo de Daniel, que sendo superintendente do maior reino dos seus dias, tirava 3 momentos para orar ao Senhor. (Dn.6:1-11) Ele era um homem ocupado, e muito pressionado, mas, era disciplinado na sua busca por Deus. (ler mais…)
  3. Aprofunda-te na Palavra. Não podes ter intimidade com alguém que não conheces. Para conheceres Deus tens de buscá-lO na Sua Palavra. Não te satisfaças com o que ouves na pregação dominical. Em casa, abre a tua Bíblia e medita no que Deus tem para te dizer. (Sl.1:1-2) (ler mais…)
  4. Integra Deus no teu dia-a-dia. Deus não existe só ao Domingo, ou só está na casa de oração. Ele está contigo por onde quer que andares. Aprende com o exemplo de Neemias, e integra Deus no teu dia-a-dia, e nas tuas decisões. (Ne.2:4) Vive como se Ele estivesse presente, porque está mesmo. (ler mais…)
  5. Junta-te aos santos. As más companhias corrompem os bons costumes. (1Cor.15:33) Mas, como o ferro aguça o ferro, os homens aperfeiçoam-se no confronto com os outros. (Pv.27:17) Junta-te a irmãos na fé mais experientes e que te ajudem no crescimento. Aprende com eles.
  6. Sê honesto/sincero. Não tenhas medo de te expôr perante Deus. Ele já sabe tudo a teu respeito. Não há fórmulas, nem palavras certas. O teu coração sincero e contrito é tudo o que Deus quer. Expõe-Lhe os teus medos, angústias, lutas, fracassos. Ele cuidará de ti. (Fl.4:6-7)
  7. Sê grato. Não uses Deus apenas como uma forma de resolver os teus problemas. Dá-lhe a honra e o louvor que Ele merece por todo o bem que te tem feito. Sê grato. Perante Deus, mas, também perante a Igreja e os Homens. (Is.12:4) Para que todos saibam que o teu prazer está em Deus e que o bem que há em ti tem n’Ele a fonte.
  8. Sê obediente. O pecado é o mais poderoso impedimento da comunhão com Deus. Por isso, busca arrependimento, confessa e deixa que Deus te restaure. Depois, vai e não peques mais. Medita na vontade do Senhor e procura obedecê-la em tudo. (Tg.1:22-25) A obediência é o contrário do pecado. A santidade é a sua consequência. A intimidade com Deus a sua recompensa.

Qual a tua experiência na busca da intimidade com Deus?

Mantém-te ligado nos próximos dias enquanto exploramos cada um destes passos.