“P” de Presença

A saudade é um sentimento português. Bem, talvez não o sentimento mas a palavra que o expressa. Afinal, o coração de todos os Homens anseia pela comunhão dos que estão ausentes. Todos já passamos o dia com o coração aos pulos pela antecipação do reencontro com alguém querido. Os minutos contados até estar com o amado(a). A lembrança dos mimos dos filhos. A vontade de pular para o colo dos pais. A distância faz-nos sentir a importância do outro, e, por nossa vontade nunca estaríamos separados.

A parte mais difícil do nosso relacionamento com Deus talvez seja lembrarmo-nos e experimentarmos a Sua presença constante. A essa dificuldade não é alheio o facto de Deus ser espírito, logo, invisível, impalpável, e, por isso, mais facilmente esquecível. “Longe da vista, longe do coração” como diz o ditado popular não pode expressar a realidade do nosso relacionamento com Deus. Nada transformará tanto as nossas vidas como a prática constante da Presença de Deus. Considera o Salmo 23.

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias.”

A canção da Presença de Deus. Davi era um homem experimentado na intimidade com Deus. Não é por acaso que Deus o chama “homem segundo o meu coração”. (At.13:22) O Salmo 23 expressa bem essa intimidade e todos os benefícios que Davi retirava dela.

Demoremo-nos considerando o impacto que a Presença Viva de Deus tem na nossa vida.

  • Paz. Andar na Presença de Deus significa em primeiro lugar estar em paz com Ele. Isto é, já reconciliado com Ele em Cristo Jesus. (Rm.5:1) Tanto o verbo estar como andar expressam que essa experiência é contínua. A confirmação da nossa paz com Deus vem de andarmos com Ele. Por outro lado, temos a paz de Deus. (Col.3:15) A quietude e descanso de sabermos que Ele está connosco e no controlo de todas as circunstâncias.
  • Provisão. Deus cuidará de ti. Não te deixará em necessidade. Não precisas ficar ansioso, antes busca-O acima de todas as coisas, e Ele mostrará a Sua fidelidade para contigo. (Mt.6:25-34)
  • Protecção. Ele é Quem te livra do mal. Dos perigos. Das tentações. Ninguém intentará acusação contra os escolhidos de Deus. Ele é o teu refúgio e fortaleza, O que firma os teus passos, e te conduz ao lugar seguro. Mas, para que a Sua protecção seja manifesta e eficaz em ti, tens de estar perto d’Ele e obedecer à Sua voz de comando. (Rm.8:31-39)
  • Prazer. Caminhar com Deus não é um fardo. É verdade que esse é o caminho da negação pessoal, do “tomar a cruz”, mas, não é um fardo. O pecado é que pesa sobre ti, que te limita e afunda. O jugo de Jesus é suave e conduz-te ao descanso. A presença de Deus satisfaz abundantemente. (Mt.11:28-30)
  • Prioridades. Apesar de teres um alvo, há muitas coisas no caminho que te seduzem e te atraem para atalhos mortais. A presença correctiva, disciplinadora, condutora e instrutora de Deus vai conduzir-te sempre ao lugar onde deves estar – o centro da Sua vontade. (Hb.12.6-11)
  • Plenitude. O copo só transborda se for continuamente cheio com algo novo. Assim que te afastas da presença de Deus a tua vida entra em declínio, mas, perto, serás renovado a cada dia pela experiência das Suas misericórdias que são novas a cada manhã. (Lm.3:22-26)

É uma loucura desprezar a benção da presença de Deus. Mas, por vezes, parece-nos tão difícil manter viva essa realidade no nosso dia-a-dia. Vivemos num ciclo pernicioso de afastamento e reconciliação, como um casal disfuncional que passa a vida em conflito, nunca experimentando a doçura de um relacionamento de intimidade crescente e duradoura. Sem intimidade não há crescimento. Proponho 3 estratégias para viveres a presença de Deus de um modo natural no teu dia-a-dia:

  1. Fala com Deus com frequência.Não reserves a oração para momentos específicos do dia. É verdade que os momentos de solitude são muito importantes e deves guardar um tempo específico para estar e falar com Deus. Mas, não reduzas a tua comunhão a isso. Imagina como seria estranho se estivesses com um amigo o dia inteiro e só falasses com ele quando iniciavas uma refeição e num período de 15min. pré-determinado e durante o resto do tempo fingias que ele não estava lá. Esquisito, não? É isso mesmo que fazemos com Deus. Agimos como se Ele não estivesse lá. Fala com Deus durante o dia. Em orações audíveis ou silenciosas. Para pedir ajuda ou dar graças. Para simplesmente louvar e adorar. Neemias era um homem assim. Ele fez a oração mais rápida de que temos registo na Bíblia. (Ne.2:1-6) Um dia estava a falar com o rei e quando este lhe fez uma pergunta, num micro-segundo, Neemias orou e imediatamente respondeu ao rei. Isso é viver a presença de Deus.
  2. Inclui Deus na tua linguagem. Tenho a certeza que conheces alguém com quem é impossível falar sem que essa pessoa não comece a debitar versículos bíblicos, ou a falar de Deus, e encaminhar a conversa para pensar em Deus. Podem estar a falar do tempo, das notícias, do emprego, da família. Não importa. Mais cedo do que tarde a conversa vai sempre incluir algum pensamento acerca de Deus. Sabes o que a Bíblia diz acerca disso? Que “a boca fala do que o coração está cheio”. (Lc.6:45) Em boa verdade, o mandamento do Senhor é esse mesmo. Enche o teu coração e mente com as coisas boas de Deus (Fl.4:8), e, no abrir da tua boca, Deus será o teu grande tema.
  3. Testifica do que Ele tem feito por ti e em ti. Partilha com os outros a tua experiência com Deus. Quando fazes isso, tratando Deus como uma pessoa bem real para ti, tão real como os teus amigos, colegas ou familiares, manténs viva a presença de Deus não só para ti, mas, também para eles. Quando alguém morre, os que ficam mantêm vivo o seu legado e memória falando sobre ele. Quando cessam as histórias, cessa a memória, e com a memória cessa a presença. (Is.26:8)

Muda a sabedoria popular. Que para ti Deus esteja “longe da vista, mas, perto do coração”!

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Para mais sobre a intimidade com Deus clique aqui.

 

Gratidão

A palavra mais repetida por mim, ontem, foi sem margem para dúvidas, “Obrigado”! Todo o carinho demonstrado para comigo por causa do aniversário aqueceu o meu coração e despertou-me para a gratidão. Como ficar em silêncio perante o Amor?

Mostrar gratidão produz um impacto definitivo nos relacionamentos. Se fazes bem a alguém e essa pessoa te ignora ficas magoado, e tentado a retrair a benção da próxima vez. Mas, se perante o teu acto de Amor recebes como recompensa um simples “Obrigado”, o teu Amor aprofunda-se, firma-se, e renova-se em novas atitudes de bondade para com o outro.

O Amor de Deus é o único que não esmorece perante a nossa ingratidão. Porque Ele é Deus, e a essência do próprio Amor. Ainda assim, Ele nos desafia:

“… e sede agradecidos.”
Colossenses 3:15

Neste texto Deus desafia-nos a deixarmos para trás as coisas da velha natureza de pecado e a nos revestirmos das novas coisas de Deus, tais como, misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, perdão, amor e paz. Lembramo-nos sempre destas características do Cristão. Mas, logo de seguida, o Senhor acrescenta: “e sede agradecidos“.

A gratidão é fundamental à intimidade. Ela é a expressão de reconhecimento da importância do papel do outro na nossa vida. Sejam os nossos familiares, amigos, colegas, ou, Deus.

Tira 5 minutos do teu tempo. Revê o teu dia e encontra motivos de gratidão. Agradece às pessoas que abençoaram a tua vida hoje. Agradece a Deus. E, sente o Amor invadir a tua vida.

Há algum tempo atrás aprendi uma importante lição sobre a gratidão através do meu filho J. Podes ler esse relato aqui.

Deus te abençoe.

Sede agradecidos

Passam hoje exactamente 3 meses desde o meu último post. Os 92 dias que os separam foram um verdadeiro turbilhão. O consultório encerrado para uma remodelação que de 3 semanas se fez 3 meses – e a penalização económica correspondente. A gravidez de risco da S. que a obrigou a repouso absoluto. As doenças do J. e da I. que os aborreceram por semanas.

“E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações;” (Colossenses 3:15)

Apesar de tudo houve paz. O tempo que passei em casa permitiu-me acompanhar a fase difícil da S. e dos filhos. Se estivesse a trabalhar teria sido bem mais difícil. E, mesmo não trabalhando, Deus supriu as nossas necessidades.

Durante esse tempo, Deus colocou um cântico no nosso coração. Chamamos-lhe “Vida Real”. A certa altura diz assim, “Sem o Teu amor eu já não sei viver. És tudo o que preciso para uma vida real“. O texto de Colossenses citado acima exorta-nos a deixarmos para trás tudo o que é velho na nossa vida e a revestirmo-nos de Cristo. O verso 14 diz: “(…) revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” Mergulhados no Amor do Pai somos dominados pela Sua Paz, que vai muito além do nosso entendimento. Essa é a Vida Real!

“E, sede agradecidos.” (Colossenses 3:15)

Hoje, sentado com a filhota recém-nascida no braços, abraçado pela S., juntinho ao J. e à I., tenho apenas uma coisa a dizer:

“Obrigado, Pai.”