Olhar a Bíblia – Mateus 8:1-18

Olho para estes encontros em Cafarnaum como uma parábola viva da mensagem da montanha. Uma grande multidão desceu a montanha com Jesus. Imagino-a diferente daquela que Jesus deixou quando se retirou para o monte. Essa estava com Jesus por causa dos milagres. Esta seguia-O porque lhes tinha desafiado o espírito. É um erro pensarmos que a Palavra de Deus não é suficiente em si mesma para atrair pessoas a Cristo.

Há três encontros descritos no percurso até casa de Pedro. Com um leproso. Um soldado inimigo. Um familiar querido de um amigo. Em cada um deles há reflexos de Graça e de uma percepção correcta da Fé.

O leproso acerca-se de Jesus em busca de cura. A sua atitude revela as características dos bem-aventurados. A humilhação a que se dispôs ao expor-se perante todos é encorajada pela confiança que tem naquele que trata por Senhor. A autenticidade da sua fé percebe-se na adoração que precede o rogo, e na formulação do seu anseio. “Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo.” Este abandono total à vontade do Salvador, juntamente com a confiança férrea de que Ele tinha o poder de realizar a Sua vontade, desbloqueiam a benção. “Quero”, foi a resposta de Jesus. Quando pressupomos o mérito, ou quase exigimos como quem reivindica direitos, ficamos excluídos de receber aquilo que só vem pela Graça. Jesus enviou-o aos sacerdotes, para que cumprisse a lei. A verdadeira fé traduz-se sempre numa práxis legal, não como motivo para o encontro com Cristo, mas como consequência dele.

A fé conduziu também à inversão de papéis entre o centurião romano, a figura de autoridade, e Jesus, o não-cidadão que devia submissão a Roma. É quando agimos em sentido contrário à nossa natureza que encontramos o caminho da humildade, e da redenção. Este homem recebeu sem pedir. Enquanto falava da condição precária do seu servo, a cura estava já estendida por Jesus. “Não andeis ansiosos…” tinha Jesus ensinado na montanha. Deus, o Pai, sabe o que necessitamos. Mas, a maior prova de fé ainda estava por vir. Reconhecendo até ao limite a sua indignidade, o soldado impede Jesus de entrar em sua casa. Bastaria uma palavra. Creio que esta é a maior prova de fé – crer apenas pela Palavra, sem necessidade de manifestações exteriores. “Bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jo.20:29)

Por último, a sogra de Pedro. Mais uma vez a cura vem sem pedido. O impulso natural de Cristo é trazer restauração onde o pecado opera destruição. Tocada pela Graça, a mulher ergue-se do seu leito e começa a servi-los. Que ilustração magnífica do que é ser sal e ser luz! A manifestação através das obras da justiça alcançada pela fé é a consequência natural naqueles que verdadeiramente foram reconciliados com Deus.

Uma multidão tornou a reunir-se em torno de Jesus. Enfermos. Endemoninhados. Todos buscando cura. Libertação. Enquanto a euforia se espalhava novamente pela turba, Jesus retira-se. Não lhe interessa a empatia de uma multidão obcecada com milagres. Imagino que a gestão que Jesus fazia dos seus poderes divinos seria muito difícil. Por um lado, o Criador compadece-se das dores a que sua criação ficou sujeita pelo pecado, e deseja anular esses efeitos. Por outro, sabe que esse não é o caminho da reconciliação. E, por isso, retrai-se, e tenta re-centrar a atenção do Homem naquilo que realmente o pode salvar – a Fé no Deus-Homem que veio dar a sua vida por resgate daqueles a quem tanto ama.

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Olhar a Bíblia – Mateus 7

As obras e o fruto são duas coisas bem diferentes. As obras requerem esforço, vontade, e podem ser manipuladas, fabricadas ou imitadas. O fruto é resultado da natureza das coisas, e por isso mesmo, não pode ser imitado ou manipulado. Sempre que a Bíblia fala da transformação que a verdadeira fé produz nos que crêem, refere-se a fruto – o fruto do Espírito – e não a obras.

No fim do seu discurso na montanha, Jesus chama a atenção para isto mesmo. A prática de fé de que tem falado é fruto e não obras. Muito mais do que novas obras, Deus quer trazer a nós uma nova natureza. Creio que este é o enfoque principal de Jesus. Até ali as pessoas pensavam que desde que fizessem mais ou menos aquilo que Deus pedia – a observância dos rituais, logo, obras – obtinham a Sua aprovação e podiam viver como bem entendessem. Havia uma separação entre a prática da fé e a vida cotidiana.

Agora, Jesus ensina que o propósito de Deus é uma transformação de natureza. Uma natureza nova capaz de produzir naturalmente bons frutos. Sendo assim, mais do que insistirmos no esforço de imitar a virtude, devemos esforçar-nos por dar liberdade à acção de Deus em nós. Há quatro atitudes de que Jesus fala:

Examina-te a ti mesmo. O reconhecimento, arrependimento e confissão de pecados é parte fundamental do processo de santificação.

Pede. Busca. Bate. Ficar na dependência absoluta de Deus em relação ao nosso futuro, buscando-O em tudo, porque confiamos que Ele sabe e tem sempre o melhor para nós.

Assume as convicções. Optar pela maioria nem sempre é sinónimo de decisão acertada. Suportar ficar sozinho na defesa da fé é dar lugar a Deus e não à carne.

Constrói bem. A parte mais importante de qualquer edificação são os alicerces. Firmando as nossas vidas na Rocha que é Cristo e a Sua Palavra, cresceremos sempre, frutificando para Sua glória.

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Olhar a Bíblia – Mateus 6:24-34

Que impacto tem a fé no nosso dia-a-dia?

Tendemos a isolar a fé nas catedrais, nos momentos de culto, ou às horas de aflição. Por vezes, parece mesmo que sofremos de um caso agudo de distúrbio de personalidade – somos uma coisa ao Domingo, na igreja, e outra, inteiramente diferente, no resto dos dias, com os amigos, no emprego, em casa. A raiz deste problema está em não levarmos a fé à prática. A nossa fé em Deus deve influenciar todas as áreas da vida, e não somente aquelas actividades que consideramos “espirituais”. Para Deus não existe a vida espiritual e a secular. Existe uma só Vida, que deve ser o reflexo da Sua perfeição e santidade.

Jesus aborda esta questão de uma forma muito pragmática, levando-nos a considerar quem tem o senhorio sobre a nossa vida. Se verdadeiramente temos fé em Deus, e essa fé se reflecte numa práxis integral de vida, então é Deus quem tem o senhorio sobre nós. Se, por outro lado, permitimos que em alguma área da vida outra coisa tome o lugar que pertence a Deus pela fé, já não é Ele que é senhor.

Há dois aspectos na intervenção de Jesus que me chamam à atenção. Primeiro, Jesus coloca a prova de fé não em alguma tarefa quase inatingível, mas nas tarefas simples do quotidiano. Comer. Beber. Vestir. Ele reconhece que estas coisas de que todos precisamos são uma fonte de grande stress para nós. Por isso mesmo, é aí que começa a nossa prova de fé – na nossa capacidade de descansar em Deus, sabendo que ele cuidará de nós. Isso não nos desresponsabiliza de sermos esforçados. Significa apenas que fazemos tudo sabendo e confiando que Deus está a olhar por nós.

Por outro lado, Jesus leva a questão da idolatria muito mais além do que supomos. Ao falar de um coração dividido entre dois senhores, ele faz a demonstração com a atitude que temos em relação ao dinheiro. O curioso é que Jesus não fala de uma avareza insuportável, um amor ao dinheiro desenfreado ou de uma ganância doentia. Ele fala de buscarmos coisas que são lícitas, e mais do que isso, necessárias. A idolatria está em que nos dedicamos a elas e desprezamos a Deus. Afinal, podem existir muitos ídolos subtis que estão a minar o nosso relacionamento com Deus.

A verdadeira práxis de fé é:

“Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt.6:33)

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