Olhar a Bíblia: Mateus 18

A ilusão de grandeza está presente no coração do Homem desde o Éden. Quando Satanás contaminou a mente e o coração de Eva e Adão, a sua concupiscência inclinou-os a desejar “ser como Deus”. (Gn.3:1-7) A Queda não foi lição suficiente para afastar essas intenções do coração humano. Com o tempo elas refinaram-se, ocultaram-se, ciêncizaram-se, politizaram-se, vestiram-se de piedade religiosa, mas, continuam arraigadas no mesmo mal: queremos ser como Deus, para tomar o lugar de Deus, e não precisarmos mais de Deus. O pecado mostra assim a sua face.

Perante a escalada de glória de Jesus percebida pelos discípulos, eles cuidam de defender os seus interesses: “Quem será o maior no reino dos Céus?”. Apesar de acompanharem o Cristo para onde quer que Ele fosse, eles ainda não reconheciam nem entendiam o real escopo da Sua Missão. Jesus chama uma criança que brincava por perto e apresenta-a no meio deles. Começava aqui a lição acerca da grandeza do Reino

Contrariamente ao que julgavam, a pergunta dos discípulos colocava-os mais longe de entrarem no Reino. O seu manifesto interesse em se qualificarem bem para alcançarem honras de estado no Reino, mascarava um problema recalcado no fundo dos seus corações – a mesma ilusão de grandeza do Éden. O olhar perscrutador do Senhor-que-tudo-vê conhece até as intenções do coração. A menos que no seu coração se tornassem como crianças o Reino estaria para sempre longe deles. A simplicidade, honestidade, humildade, e dependência são as virtudes que Deus procura. E, as maiores qualificações dos eleitos do Reino.

O pecado, por outro lado, é o único entrave à entrada. Por isso, ele deve ser levado a sério por todos quantos querem ver, entrar e permanecer no Reino de Deus. Ao invés de nos esforçarmos por preservar os nossos corpos – tendência universal de todos os tempos, e em particular deste, em que a imagem é tudo – devemos ir até às últimas consequências para preservar a nossa alma do pecado que nos rodeia. Pois, de que nos serve a glória do mundo se perdermos a glória de Deus? (Mt.16:26; Mc.8:36; Lc.9:25)

Considerando tão solene aviso, a nossa luta contra o pecado não deve parar naquilo que a nós diz respeito, mas, deve levar-nos a agir para livrar o nosso próximo de igual perigo. A comunidade cristã torna-se assim um espaço de cooperação, cura, restauração, e crescerá na excelência de santidade que Deus deseja. No Reino de Deus não há lugar para narcisismos, egoísmos, vaidades, nem sobrancerias. Se o meu irmão cai, o meu único desejo deve ser levantá-lo de novo.

O nosso esforço na luta contra o pecado, embora útil, desejável e piedoso, não é, no entanto, a chave que nos abre a porta do Reino. É apenas um reflexo da nossa permanência. A parábola do rei e dos servos devedores constitui, pois, o ponto fulcral da lição de Jesus. É em torno desta história que se entende tudo quanto Jesus quer ensinar. Um rei. Dois servos. Duas dívidas. Há alguns aspectos vitais na história. Primeiro, o Rei – figura evidente do Senhor Deus – sabe cuidar bem dos Seus negócios: o dia de pedir contas chega sempre. Perante o Rei, os servos só podem reconhecer que estão em dívida e que a sua dívida é impagável – os 10.000 talentos correspondem a 60.000.000 dias de trabalho, ou seja, 191.693 anos de trabalho, ou seja, 2738 vidas. A misericórdia, graça e perdão do Rei podem ser desbloqueados pelo arrependimento e confissão, que por sua vez são confirmadas pela transformação do coração do servo, evidenciada no modo como lida com o pecado dos outros.

A ilusão de grandeza dos discípulos é desconstruída pela visão clara da única coisa Grande no Reino: a Misericórdia, Graça e Amor do Senhor Deus que perdoa pecados, e recebe os contritos de coração.

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Olhar a Bíblia: Mateus 17

A experiência cristã vive do difícil equilíbrio da dicotomia de uma prática da fé na intimidade solitária ou comunitária com Deus, e, a prática da mesma fé na hostilidade de um mundo que não reconhece a Deus. A montanha e o vale. O lugar santo saturado da presença inegável de Deus, e, o lugar comum dos desafios à fé onde a nossa fragilidade e incapacidade são mais evidentes.

Todos gostamos de estar na montanha. O êxtase dessa experiência leva-nos a buscá-la incessantemente, por vezes, até por meio de artifícios que mimetizam o mover sobrenatural do Espírito, mas, são inconsequentes nos seus efeitos santificadores. A montanha é essencial para sobreviver num mundo hostil à fé. Jesus é descrito muitas vezes a subir a montanha. O recolhimento, consolo, instrução e capacitação que recebemos quando nos encontramos com o Senhor são imprescindíveis para nos mantermos no centro da Sua vontade.

A vida, no entanto, não pode ser feita apenas de montanha. O chamado de Deus para os seus é que desçam ao vale para alcançar os que ainda estão perdidos. Aí a nossa fé é posta à prova. A instrução que recebemos antes tem que ser aplicada. A forças empregues até ao limite para alcançar o fruto. O preço amargo do tomar a cruz pago com gozo santo.

Nem quem vive sempre na montanha, nem quem insiste em ficar no vale, prova a vida abundante que Deus, em Cristo, tem para os seus. Não estamos sempre fracos, necessitados do consolo do Pai. Nem estamos sempre fortes, capazes de enfrentar as potestades. Somente os experimentados – como Jesus – em subir ao monte e descer às multidões, estão aptos a cumprir todo o desígnio de Deus para as suas vidas.

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Olhar a Bíblia: Mateus 16:13-28

O Homem e a Missão

Alguém disse: “De que adianta um exército de milhares, se entre todos não se encontra uma só coragem?

O entusiasmo e euforia pela presença de Jesus calcorreando as cidades, começava a dar lugar a um ambiente pesado e hostil promovido pelo aparelho religioso. Mesmo entre os seus próprios seguidores o desconforto aumentava. “Porque é que Ele não faz nada? Quando é que Ele vai avançar?” arrazoavam entre eles.

Conhecendo os seus corações, Jesus lança uma interrogação: “Para o povo, quem sou eu?”. As explicações multiplicam-se, e Jesus vai mais fundo: “Para vocês, meus discípulos, quem sou eu?”. O coro de respostas dá lugar a uma declaração solitária, audaz e revolucionária: “Tu é o Cristo!”. O Messias esperado e desejado. O cumprimento da Promessa do Senhor. O Filho do Deus Altíssimo.

Glória! A fé periclitante dos inconstantes discípulos era permeável à revelação do Espírito Santo. O futuro trazia uma esperança renovada, e o clamor de vitória já se fazia ouvir.

O Homem e a Missão. Jesus abre o seu coração e fala abertamente do propósito que O fez encarnar. O Emanuel, Deus connosco, era o Cristo, o Messias, e Jesus, o Salvador do povo. Salvador de quê? Do jugo romano, dos inimigos antigos, das doenças, da miséria? Do pecado. Ele veio salvar o pecador. E, para ser Salvador, Ele devia pagar o preço pelo pecado, a morte. O justo pelos injustos, para levar-nos a Deus. (1Pd.3:18)

Na mente dos discípulos a missão aparentemente suicida do Mestre era incompreensível. “Não faças isso!”. Mas, o Homem e a Sua Missão não podiam ser separados. A sedução diabólica foi reprimida rapidamente, e deu lugar à apologia da cruz. Ao abraçar a missão que nos foi confiada acharemos a Vida.

Ao longo dos séculos a Igreja tem penetrado os mais negros e sombrios meandros da Humanidade e prevalecido vitoriosa, conforme a profecia de Cristo. A luz tem brilhado nas trevas,e ainda brilhará. Mas, a quantos nas suas fileiras não falta “uma só coragem”? Que revolução faríamos no Mundo se todo e cada um dos Filhos de Deus, assumisse a plenitude da sua condição e a plenitude da sua missão? Tal como Jesus fez.

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Olhar a Bíblia – Mateus 16:1-12

As nossas estradas estão cheias de sinais de trânsito. Eles são fundamentais para uma circulação segura de pessoas e veículos. Os sinais alertam para as regras, trazendo à memória e confirmando aquilo que nos foi ensinado. Há diferentes atitudes que podemos assumir perante os sinais. Podemos reconhecer o sinal, entender o seu significado, e ignorarmos ou não nos preocuparmos com as indicações. Estes são os descuidados. Podemos deliberadamente desobedecer e rejeitar a autoridade do sinal. Estes são os rebeldes. Qualquer uma destas atitudes, embora diferente nas suas motivações, produzirá o mesmo resultado: desobediência e castigo. Mas, há uma outra atitude. Podemos ver o sinal, e, mesmo não entendendo bem o seu significado, procurarmos obedecer. Podemos questionar alguém, indagar junto de um agente de autoridade, acatar a instrução e obedecer.

Os fariseus e os saduceus aproximaram-se de Jesus questionando-o acerca dos sinais. Apesar da sua atitude parecer apropriada, Jesus sabia que a sua intenção não era. Muitos sinais e maravilhas haviam sido feitos e nenhum deles tinha servido para confirmar a missão de Jesus para estes homens religiosos. A acção de Jesus assentava em dois pilares: ensino e milagres. O propósito dos últimos era confirmar a autoridade daquilo que Jesus ensinava. O problema dos religiosos daqueles dias – e dos nossos também – era que o ensino de Jesus chocava com as suas próprias convicções e conveniências. E, por isso, eles se recusavam a aceitá-lO.

Jesus responde com um enigma. O sinal do profeta Jonas. A correcta interpretação dos sinais vem da observação sistemática de causa-efeito. É assim que prevemos o tempo. Estes religiosos eram homens experimentados nas Escrituras e Profecias. Eles eram os mestres que ensinavam o resto do povo. O que Jesus estava a dizer-lhes é que eles deveriam interpretar as Escrituras da mesma maneira que interpretavam o tempo: observando os sinais antigos, as profecias, e procurando reconhecer os seus efeitos e cumprimento ao longo dos tempos. Esses sinais apontariam claramente para Cristo. E o derradeiro desses sinais seria o do profeta Jonas. Se eles fossem honestos e sinceros diante de Deus entenderiam o seu significado.

Diferente atitude tiveram os discípulos. Eles também não foram capazes de interpretar bem os sinais de Jesus. Mas, ao contrário dos fariseus e saduceus, não foi por causa da dureza de coração. Estes homens simples, alguns pouco instruídos, estavam a aprender. E, Jesus quis ensiná-los acerca da maneira certa de fazer isso. Falou-lhes de fermento. Eles confundiram tudo e pensavam que Jesus estava a dar-lhes um ralhete. Jesus lembrou-lhes sinais que eles tinham testemunhado para demonstrar que a sua preocupação não era, como a deles, material e mundana, mas antes, espiritual e eterna.

Para interpretarmos bem os sinais que Deus coloca à nossa vida precisamos guardar-nos de tudo o que possa contaminar a nossa abertura e disponibilidade para aprender. O pecado, as conveniências, as tradições, o orgulho, a presunção, a excessiva auto-confiança são como o fermento. Têm uma presença invisível no modo como nos relacionamos com Deus e a Sua Palavra. Mas, apesar de invisível, os seus efeitos não tardarão a sentir-se, como o fermento que leveda toda a massa.

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Olhar a Bíblia – Mateus 15:21-39

Uma das coisas que me atrai em Deus é que Ele muitas vezes nos encontra em lugares e momentos inesperados. E repito, Ele nos encontra. Hoje fala-se muito em empreendedorismo, em “pensar fora da caixa”, ir além do que já foi feito ou pensado. Bem, o maior empreendedor da História é Deus. Ele, o todo-suficiente Deus, parte em busca daqueles que O rejeitaram. Ele, o Santo, Santo Santo, escolhe amar os pecadores. Ele, o Justo Juíz, redime os injustos pagando o preço para satisfazer a Justiça. Tudo na intervenção de Deus na História do Homem é além dos limites, além de tudo o que poderíamos sonhar e até mesmo desejar. Ainda assim, muitos O rejeitam. Mas, Ele continua a empreender, a surpreender, a ir mais além porque nos ama e não desistirá de nós.

O que faria Jesus sair do seu território natural, atravessar a fronteira, e entrar em território hostil? Alguns talvez pensassem que Ele fugia, afinal começava a levantar-se uma onda de contestação e oposição que já era indisfarçável. Talvez Ele fosse procurar asilo para escapar dos seus opositores. Nem mesmo os seus discípulos entendiam muito bem aquela escolha estratégica. É que apesar da oposição crescente por parte das estruturas religiosas, o povo estava com eles. Mas, seguiram-nO porque Ele era o Mestre.

O incómodo dos discípulos revelou-se quando uma mulher se abeirou deles e insistentemente procurava captar a atenção de Jesus. “Jesus, manda-a embora. Acaba com esta perturbação. Que ousadia esta mulher “impura” tem!” É então que Jesus surpreende ainda mais. Ele toma a sua defesa. Fala com ela. As suas palavras são exigentes para provar a sua fé. Perante a prova, a fé daquela mulher agiganta-se e Ele concede-lhe a benção desejada. E depois, regressa. No ar fica a sensação que o único motivo que O levou ali foi encontrar-se com aquela mulher. A graça de Deus não conhece limites de raça, língua, cultura, idade, sexo, ou condição social.

A iniciativa de Jesus contrasta bem com a falta de visão e expectativa dos discípulos. Primeiro, rejeitam ajudar uma mulher apenas porque ela não encaixa no padrão que eles definiram nos seus corações e mentes. Depois, perante a compaixão desafiadora de Jesus ficam paralizados pela falta de fé. “De onde nos viriam, num deserto, tantos pães para saciar esta multidão?” – perguntam aqueles que alguns dias antes recolheram doze cestos de sobras após alimentarem uma multidão de milhares.

Quantas vezes a vontade de Deus não esbarra na nossa indiferença ou incredulidade? O maior limite à acção de Deus somos nós.

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