Aleluia! Que Salvador!

Leitura recomendada: Mateus 27:33-44; Marcos 15:22-32; Lucas 23:32-43

As seis horas mais negras da História começam com duas afirmações de Graça e Perdão.

A primeira é uma expressão do espírito manso e humilde de Jesus: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.”. O exemplo de Jesus de amar os inimigos e estender perdão aos que ofendem tem sido a marca dos mártires ao longo dos séculos. Lembremo-nos de Estevão que, ao ser apedrejado, rogava a Deus pelo perdão dos que o maltratavam. Lembremo-nos de Corrie ten Boom, uma filha de Deus enviada para um campo de concentração nazi por acolher e esconder judeus durante a II Guerra Mundial. Anos mais tarde, tendo sobrevivido aos horrores da guerra, no final de um culto numa igreja em Munique durante o qual falara sobre o Deus que perdoa, vê um homem caminhando na sua direcção. À medida que ele se aproxima, as memórias dos sofrimentos passados são reavivadas pelo rosto familiar. Tratava-se de um dos guardas do campo onde estivera prisioneira. O seu corpo tremia todo. A mente acelerava, o coração quase saía do peito. Quando o homem finalmente chega perto dela, apresenta-se como um dos guardas do campo de concentração onde ela estivera detida. Ele não a reconhecia – talvez porque na bestialidade dos horrores praticados era mais fácil não atribuir rostos a quem se tratava com tanta desumanidade. O homem conta que após o fim da guerra conhecera a Cristo e encontrara n’Ele perdão para o seu passado sombrio. Agora, ele também era um cristão. “Vim para pedir-lhe perdão!”, disse o homem. Corrie sabia o que devia fazer mas sentia-se incapaz de o fazer. No seu íntimo rogou a Deus que a ajudasse, e estendeu a mão. Uma sensação de paz interior e amor inundou ambos no toque perdoador.

Muitas outras histórias poderiam ser contadas. O perfume suave da Graça tem sido levado a todo o lado pela Igreja. Confiados na Justiça de Deus, deixamos a vingança (leia-se, a reposição da justiça) nas mãos do Senhor, e entregamo-nos ao amor, à paz e ao perdão.

A segunda expressão da Graça, porém, não está ao alcance de nenhum Homem. Jesus responde ao apelo de um dos crucificados e diz: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso.”. Este estender de perdão ultrapassa as injúrias antes proferidas contra Ele. O que está em causa não é a ofensa particular e pessoal contra o homem Jesus, mas uma vida inteira de pecado numa ofensa ignóbil e monstruosa contra o Deus Santo. Nenhum Homem pode conceder tal perdão, apenas Deus tem poder para perdoar os pecados. Pendurado na Cruz, acusado de heresia pelos líderes judeus, Jesus assume totalmente a Sua Missão e a Sua Natureza. Ele é totalmente Deus. Ele fez-se homem com um propósito. Ele veio para salvar os pecadores. Ali, mesmo no momento em que, pelo Seu sacrifício voluntário, cumpria todas as exigências de justiça da Santidade divina – que é digno de morte aquele que pecar, Jesus concede, sem preço, pela Graça, mediante a Fé, o dom da Vida Eterna que só pode ser dado ao que crê, a um homem que merecia o castigo e nunca teria oportunidade de praticar nenhuma boa obra que mudasse o seu destino.

Em nenhum outro momento de que me lembre, o escândalo da Graça foi mais evidente. Outros homens maus têm encontrado o perdão. O nazi que se rendeu a Cristo. O zeloso Saulo, perseguidor da Igreja e de Cristo, que ficando cego na estrada para Damasco, viu pela primeira vez a glória excelente d’Aquele a quem perseguia. Paulo teve que enfrentar as dúvidas dos cristãos quanto à credibilidade da sua conversão. Só com a evidência do seu viver transformado foi, aos poucos, aceite pela Igreja. Embora confessemos nos nossos Credos que a Salvação é pela Graça e mediante a Fé, não pelas obras ou méritos de cada um, mas exclusivamente pelos méritos de Cristo, o nosso sentido inato de auto-piedade e justiça própria insiste em convencer-nos que, lá no fundo, conseguimos provar a Deus que Ele não se enganou quando nos perdoou. É que nós até merecíamos. Certamente não temos a ousadia de colocar este sentimento em tantas palavras, mas, o incómodo que sentimos quando um “grande” pecador é perdoado é sinal evidente do que vai no nosso coração. É por essa razão que o Catolicismo Romano criou a ideia do purgatório. O papa Paulo VI disse: “Cremos na vida eterna. Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo – quer ainda tenham que fazer expiação no fogo do purgatório, ou desde o momento em que deixam os seus corpos sejam recebidos no Paraíso por Jesus Cristo, tal como o bom ladrão – vão formar o Povo de Deus que vence a morte, a qual morte será totalmente destruída no dia da Ressurreição quando estas almas forem reunidas aos seus corpos.” (Creed of the People of God, 28). O perdão do bom ladrão, como lhe chama, é visto como a excepção única e irrepetível, de alguém que foi integralmente perdoado sem oportunidade de mostrar boas obras. Todos os outros casos terão de fazer a “sua expiação” no purgatório. Esta heresia faz tamanha violência ao acto salvífico de Cristo que o destrói por completo. Se somos incapazes de crer na declaração de Jesus que diz: “Na verdade te digo…” como creremos em todas as outras coisas que Ele declarou solenemente?

Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. João 5:24

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. João 6:47

Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. João 12:24

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. João 14:12

Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. João 16:20

E naquele dia nada me perguntareis. Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar. João 16:23

Ao mesmo tempo que o nosso “fariseu interior” se incomoda, há uma consolação inexcedível nesta promessa de Jesus: há Graça abundante e Perdão para todos os que vierem.

Todas as vozes que se ouviam no Calvário eram contrárias a Jesus. Os líderes judeus. A multidão. Os soldados romanos. E, segundo Mateus e Marcos, os dois malfeitores crucificados ao lado de Jesus, todos blasfemavam dele e O insultavam. Mas, não eram só as palavras que O feriam. O título colocado sobre a sua cabeça: “Este é o Rei dos judeus” era uma humilhação. A coroa de espinhos que se cravava no crânio. A cruz do meio, entre dois conhecidos malfeitores, fazendo-O o principal entre eles. Nenhuma destas armadilhas tenebrosas e diabólicas poderia, no entanto, impedir a Obra gloriosa que se operava naquelas horas. A Cruz do meio torna-se cada vez mais central. A atitude do homem lá pendurado deixa todos perplexos. A conversa dos dois salteadores torna-se a parábola perfeita do Evangelho.

Enquanto um dos ladrões insiste na blasfémia, o outro detém-se. Os dois viam o mesmo Cristo, na mesma Cruz, dizendo as mesmas coisas. Mas, o efeito que isso teve num e noutro demonstra o modo como as pessoas reagem ao Evangelho: uns com indiferença e endurecendo cada vez mais o coração, outros sendo conquistados pelo amor chegam ao arrependimento e à fé. Não sabemos exactamente o que fez aquele homem mudar de ideias. Ele que momentos antes injuriava a Jesus agora defende-o. Talvez tenha sido o silêncio manso com que Jesus suportava a afronta. Talvez as palavras de perdão que estendeu aos que O cravavam na Cruz. Talvez a tábua sobre a Sua cabeça que o proclamava como Rei. Talvez alguma lembrança dos actos de bondade e misericórdia que praticou. Talvez tudo isso. Em meio à loucura desenfreada do Gólgota, ele viu em Jesus um homem diferente, uma promessa diferente, uma esperança real.

R. C. Sproul definiu arrependimento assim no seu livro “O que é o arrependimento”: “O conceito central do arrependimento no Antigo Testamento pode ser resumido numa palavra: conversão. Esta palavra faz parte da linguagem habitual dos Cristãos e é o ponto focal do chamado profético ao arrependimento. Ninguém nasce Cristão. Para que alguém se torne um Cristão, alguma coisa precisa acontecer que transforme radicalmente essa pessoa. Isto está ligado ao conceito bíblico de metanoia, uma mudança de mente que não é apenas um ajuste intelectual a um conceito, mas a mudança da nossa vida inteira. Para o profeta, o arrependimento não é meramente um ritual religioso, mas a conversão integral da alma. Significa a mudança total do nosso ser.” Será que esta definição pode ser aplicada ao ladrão na Cruz? Pode alguém que morreu algumas horas depois demonstrar tal arrependimento?

Consideremos os acontecimentos. Ele silenciou as suas blasfémias. Condenou o outro por injuriar a Jesus. Admitiu a sua culpa e merecimento do castigo. Exortou o outro a arrepender-se. Confessou que Jesus estava a ser castigado injustamente porque era inocente. Reconheceu Jesus como Senhor. Creu na eternidade. Desejou passar essa eternidade com Jesus. Creu na vitória de Cristo mesmo vendo-o pendurado na Cruz. Desejou estar com Cristo para sempre e não apenas ver-se livre da sua cruz, como o outro ladrão. Humildemente, apenas foi capaz de pedir: “lembra-te de mim…”. Este homem mostrou tantos frutos de arrependimento quantos a sua situação peculiar lhe permitia. Não foi batizado. Não tomou parte da Ceia do Senhor. Não testemunhou da fé. Não praticou boas obras. Fez aquilo que podia fazer e, afinal, a única coisa que era necessário fazer: creu. E isso lhe foi imputado por justiça.

Ao seu rogo Jesus respondeu com perdão e esperança. “Na verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso.”. O estar é afirmado. A comunhão com Ele é afirmada. A felicidade eterna e consciente é afirmada. O tempo é afirmado. HOJE. Assim que os seus olhos se fechassem neste mundo, ele entraria no Descanso. O maior terror daquele homem – a morte – foi naquele momento vencido pelas palavras consoladoras de Jesus. Do outro lado, estaria Jesus para recebê-lo no Paraíso.

Mas, como? Porque Jesus se recusou a ceder à tentação do diabo no deserto quando lhe prometeu todos os reinos do mundo se o adorasse. Porque Jesus orou no Getsémani: “Faça-se a Tua vontade e não a minha”.  Porque Jesus se entregou em silêncio nas mãos dos acusadores. Porque não saiu da Cruz quando foi desafiado. Porque olhou aquele ladrão que lhe pedia perdão e tomou sobre si os pecados dele – e tantos que eram –  para suportar na sua vez o castigo e a ira do Pai. Porque suportou o castigo até ao fim e disse: “Está consumado!”. O maior acto de justiça praticado no Calvário naquele dia não foi o do ladrão arrependido, foi de Cristo. Por isso, tomamos o ladrão como exemplo de arrependimento, confissão e humildade, mas celebramos a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Só Ele é digno do nosso amor. Só Ele merece a nossa gratidão. Só Ele deve ser adorado. Porque fomos salvos da mesma maneira do que aquele ladrão. Tal como a Reforma trouxe de novo à luz: Sola Gratia, Sola Fides, Solus Christus. Somente a Graça. Somente a fé. Somente Cristo. Para que também, tanto hoje como eternamente, Soli Deo Gloria, Somente Glória a Deus.

Termino com um poema de Phillip P. Bliss: “Hallelujah! What a Savior!” (Aleluia! Que Salvador!)

“Homem de Dores!” que nome

Para o Filho de Deus, que veio

Pecadores arruinados reclamar.

Aleluia! Que Salvador!

Suportando a vergonha e o rude escarnecer

No meu lugar condenado ficou

Selou o meu perdão com seu sangue

Aleluia! Que Salvador!

Culpado, vil e sem esperança era eu;

Cordeiro de Deus sem mácula era Ele;

Salvação completa! Poderá ser?

Aleluia! Que Salvador!

Levantado para morrer Ele foi;

“Está consumado” o seu clamor;

Agora no Céu está exaltado.

Aleluia! Que Salvador!

Quando Ele vier, o nosso Rei glorioso

Todos os seus remidos para Casa levar

Esta nova canção cantaremos:

Aleluia! Que Salvador!

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Pai, perdoa-lhes…

Esta era a hora. Dos homens. E do poder das trevas. A elite religiosa da Judeia rejeitou, prendeu, acusou, julgou e determinou matar Jesus. A turba histérica antes em êxtase com os milagres agora vocifera: crucifica-O. O poder político de Roma despreza o insignificante judeu acusado de ameaçar o domínio do Império.

De alguma forma todos nós estávamos representados naquele dia. No apego ao poder, à “liberdade” de poder escolher o nosso rei. No egoísmo cego de querer as bênçãos sem a obediência. Na rejeição da Luz porque preferimos amar o pecado nas sombras. Cada um de nós crucificou a Jesus.

Nas seis horas que esteve no Calvário Jesus falou por sete vezes. As primeiras palavras subiram para o Pai em favor dos Seus algozes. “Pai, perdoa-lhes…” A comunhão de Jesus com o Pai não podia ser mais íntima ou profunda. Ele estava no princípio com Deus. Ele e o Pai são Um. O prazer de Jesus é fazer a vontade do Pai. O prazer do Pai é o Seu Filho Amado. Antes da fundação do mundo Jesus, o Cordeiro de Deus estava preparado para esta hora. Isso, no entanto, não diminuia o sofrimento nem o terror dos acontecimentos. No Getsmani, Jesus orou com suor de sangue e lágrimas: “Pai, se possível, passa de mim este cálice.” Não lhe passava pela cabeça fugir da sua missão. Ele buscava o conforto do Pai, e teve-o. Agora, de alguma maneira era Jesus quem confortava o Pai. Imagina, por momentos, o que Deus, o Pai, sentia ao ver o Seu Filho amado maltratado daquela forma. Nós, que somos maus, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos. Erguemo-nos como leões na defesa daqueles que amamos. Quanto mais Deus, o Pai celestial! Apesar, de lhe ter “agradado moê-lo” não houve nisso nenhum sentimento perverso ou sádico. O sofrimento de Jesus não lhe era indiferente. Foi tolerado porque Deus sabia o fruto que viria daí. E que glorioso fruto! Tal como Jesus buscou conforto para suportar o horror da cruz, o Pai encontrou conforto na obediência fiel do Filho que lhe suplica: “Pai, retém a tua ira. Não os destruas. Não os firas. Eu cumprirei a missão até ao fim. Eu estou pronto. Perdoa-lhes!”

Jesus sabia do custo do perdão. Mesmo assim, ele pede. O perdão divino não é um olhar para o lado. Não é possível a Deus ignorar as nossas ofensas. “A alma que pecar essa morrerá”. O pecado é uma ofensa tão grave à santidade, à justiça e ao Amor de Deus que as suas consequências são na mesma proporção: morte. Cada um dos teus pecados é uma sentença de morte. Não somos maus porque cometemos muitos pecados. Há uma perversidade na mentira que contamos a nós mesmos quando nos compararmos uns com os outros – a de que somos bons. Um pecado, um único pecado, pequeno que seja aos nossos olhos, recebe o mesmo castigo que mil pecados, ou dez mil, ou os mais de 65 mil que já terei cometido ao ritmo de cinco a cada dia dos meus 36 anos. Uma mentira igual a um roubo. Um mau pensamento igual a um estrupo ou adultério. Um rancor igual a um homicídio. Onde está a justiça nisso, clamamos? O nosso escândalo é natural. Ainda nos julgamos bons. Para compreender a severidade do castigo é preciso considerar a dignidade do ofendido – o Criador, o Sustentador e Soberano sobre todas as coisas, a fonte de todo o Bem, o Santo, a Verdade, a Justiça, o Amor perfeito, Deus. O teu pecado é digno de morte. A dívida de justiça terá que ser paga. Vida por vida, foi assim que Deus ensinou desde a Queda. Para que um seja perdoado outro deve morrer em seu lugar. Primeiro, foram os sacrifícios dos animais. Agora, um novo sacrifício é preparado. “Perdoa-lhes…” pede Jesus. “Eu pago a dívida.” Paulo ao escrever aos Colossenses diz: “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz.” (Cl.2:14) Cada um dos teus pecados levou Jesus à cruz. Ali, ao invés de clamar ao Pai para que envie as Suas legiões e O livre dos seus inimigos, Jesus entrega-se como o sacrifício que trará perdão àqueles que O poem à morte. Aos judeus. Aos romanos. A mim. E a ti.

Eles não sabem o que fazem.” João narra a Encarnação dizendo que a verdadeira Luz, Jesus, veio ao mundo, mas o mundo não O conheceu nem compreendeu. Vai mais longe e diz que Jesus veio para o que era seu, mas os seus não O receberam. Como explicar a rejeição de Jesus? Os judeus aguardavam com tanta ansiedade e expectativa a chegada do Messias, como é possível que, quando Ele veio, e apesar de todos os sinais e maravilhas, e do cumprimento de tantas profecias na Sua vinda, não O tenham reconhecido e celebrado a Sua chegada? O próprio Jesus oferece explicação: “São cegos, guias de cegos.” (Mt.15:14) A sua cegueira é fruto do pecado e da acção directa do deus deste século, o diabo, que “cegou os entendimentos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2Cor.4:4) “Eles não sabem o que fazem.” Estará Jesus a insistir no perdão dos seus inimigos porque eles, coitados, não são responsáveis pelo que fazem? Longe disso. Podemos não entender a total severidade da nossa culpa ou a profundidade da nossa responsabilidade perante Deus, mas sabemos distinguir entre o Bem e o mal, a Justiça e a injustiça, a Verdade e a mentira, a Bondade e o egoísmo e maldade, a Pureza e a perversidade. Cada um de nós sabe da sua culpa perante Deus. A nossa cegueira maior não está em que não possamos ver a Luz, mas em que vendo amamos mais as trevas. Jesus disse que não nos chegamos à Luz para que as nossas obras más não sejam manifestas. Amamo-nos mais a nós do que a Deus. Esse é o problema fundamental do pecado. Desde a Queda que a grande sedução do pecado e da rebeldia contra Deus é que queremos ser nós mesmos deuses. Nessa senda tenebrosa, escolhemos não glorificar a Deus, não Lhe dar graças, mudamos a Sua glória, diminuindo-O, trocamos a Sua verdade por mentiras (Rm.1). Escolhemo-nos a nós e não a Ele. E somos inteiramente responsáveis por essa escolha. “Eles não sabem o que fazem.” Estamos de tal modo embriagados pelo pecado que não compreendemos o alcance da nossa rejeição do Cristo. Não conseguimos olhar para Ele como totalmente desejável. A mentalidade do Jardim do Éden ainda domina o nosso coração. Tantos milénios depois ainda julgamos ser possível alcançar a promessa da serpente e “ser como Deus”.

Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem.” Jesus entrega-se como substituto daqueles que O odiavam. Ele sabe que ao ser levantado naquele madeiro atrairia muitos a Si. A Cruz é o brilho máximo da Sua Luz. Nela, Jesus triunfou publicamente sobre os Seus inimigos. Tal como o irmão Max Lucado escreveu:

“Nunca aqueles braços se abriram num abraço tão grande como quando estavam naquela cruz romana. Um braço estendendo-se para trás na história e o outro alcançando o futuro. Um abraço de perdão oferecido a todos os que vierem. A galinha ajuntando os seus pintos. O pai recebendo os seus filhos. Um redentor redimindo o mundo. Não admira que o chamem Salvador.”

O Homem que morreu por todos os homens

As horas iam longas. Longas e duras. Cheias de escárnio, de violência, e desprezo. As feridas da ira dos Homens, e os horrores da ira de Deus esmagaram o Seu corpo. Ao contemplar a cena da Cruz somos tentados a mistificar a morte do Cristo, o Deus-Homem com capacidades sobre-humanas que realizou uma obra que nenhum mortal poderia efectuar. O estertor da Morte logo nos traz de volta à realidade física, crua e sangrenta. Jesus, o Filho do Homem, inteiramente Homem, suportando no seu corpo a ira. Toda a violência a que fora sujeito, o sangue que perdera, a agonia da cruz, o peso da mão do Pai, esgotaram a Sua humanidade. A Morte vinha depressa.

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“Tenho sede”. (João 19:28) As palavras murmuradas do alto da Cruz garantem-nos que “convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados.” (Hebreus 2:17-18)

“Dá-me de beber”. (João 4:7) Num outro momento de humanidade, Jesus, cansado da viagem pára junto a um poço, numa hora de calor e busca refrescar-Se. Interpela uma mulher. Pede-lhe de beber. Mas, quem acaba dessedentado é a mulher. A água Viva que ela recebeu nesse dia nunca mais cessou. Mesmo na fraqueza da sua humanidade, Jesus não se distrai da Sua missão. Mais tarde, nesse dia, explicaria aos discípulos aquilo que O sustentava. “A minha comida é fazer a vontade d’Aquele que me enviou.” (João 4:32) A Sua humanidade, ainda que tão frágil como a nossa, foi sempre mantida sujeita ao plano, propósito e vontade do Pai. A experiência de Jesus é também a de muitos servos de Deus. Lembremo-nos de Moisés que foi sustentado pelo Senhor durante 40 dias na montanha, enquanto recebia a Lei das mãos do Todo-Poderoso. Mas, Cristo é o exemplo máximo dessa submissão.

Na Cruz, Jesus não perdeu de vista o Seu propósito. Primeiro, “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. “Hoje, estarás comigo no Paraíso”. “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?”. “Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe”. Primeiro, a vontade do Pai. Primeiro, o Cordeiro que sofre em silêncio, sem queixumes, sem retaliação. Primeiro, carregando as feridas e pisaduras por Amor dos que viera salvar. (Isaías 53) No fim, quando a Obra estava feita, Ele solta o lamento da Sua humanidade: “Tenho sede.” O Seu corpo frágil, sucumbia às ânsias da Morte.

Por duas vezes nesse dia deram de beber a Jesus. Primeiro, ao chegarem ao Gólgota, o Lugar da Caveira, deram-Lhe vinho com fel. (Mateus 27:34) Os soldados queriam entorpece-Lo para que não sentisse a dor excruciante dos cravos a trespassarem a Sua carne. Queriam lançá-Lo num limbo dos sentidos para suavizar a violência da tortura a que seria sujeito entre o Céu e a Terra. Essa é a reacção do Homem perante o horror da Cruz. Procuramos suaviza-la. Torna-la aceitável. Suportável. Esse nosso esforço é compreensível. Ninguém quer confrontar-se com a culpa de matar um Inocente. Ninguém quer ver-se capaz de tanta crueldade. A violência da Cruz incomoda-nos. A vergonha da Cruz faz-nos desviar o olhar. Mas, Ele não bebeu. Jesus queria estar perfeitamente preparado e consciente para realizar a Obra que o Pai lhe confiou. E, se queremos as bençãos da Cruz, também temos que aceitar a Cruz como ela é, a rude Cruz, emblema de afronta e de dor. E, prontamente confessar que, “aqui com Jesus, a vergonha da Cruz quero sempre levar e sofrer”, para que, “Quando Cristo voltar, quando ao Céu me levar, Sua glória eu possa receber.”

Agora, era Jesus que pedia de beber. “Tenho sede”. E, deram-lhe vinagre. (João 19:29) A resposta do Homem perante o sacrifício consumado do Cristo, a reacção às palavras de Esperança que saíram da Sua boca enquanto O maltratavam foi amarga. O suposto consolo e conforto que deram a Jesus apenas agravou o Seu sofrimento. A acidez do vinho azedo penetrando as Suas feridas ardia como fogo. A reacção do corpo era violenta, prolongando o sofrimento. No entanto, Ele bebeu, e suportou a última afronta de rebelião. Como diz, “Amando os Seus, Amou-os até ao fim”. (João 13:1)

Porquê? Por que é que Jesus se expôs à última violência? Por que ainda não estava tudo dito. Depois, da agonia no Jardim, da prisão e julgamentos sucessivos, do desprezo, das mentiras, dos abusos, do chicote, do arrastar da Cruz pesada, dos cravos, da coroa de espinhos, das quase 6 horas na Cruz, e com a Morte fechando as garras sobre o Seu corpo, Ele mal conseguia respirar. Os braços já não suportavam o peso do Seu corpo. A espaços, com muito esforço e dor, Ele erguia-Se sobre os pés, também eles cravados no Madeiro, e numa golfada, inspirava pela boca o máximo de ar que conseguia. A Sua boca estava seca. Os lábios gretados. A língua inchada e presa ao palato. Já mal conseguia respirar, quanto mais falar. Mas, ainda havia algo a dizer. O sacrifício não podia terminar em derrota, sem Esperança. Pediu de beber. Algo para molhar os lábios e a língua a fim de poder articular as palavras que precisava proclamar em alta voz. Não Lhe importava o sofrimento. Esta era a hora para que tinha vindo. E, tendo molhado os lábios, da Sua boca saíram as Palavras pelas quais toda a Criação ansiava. A vitória estava ganha. “Está consumado”. (João 19:30)

Seis horas

A noite correu tenebrosa e agitada. Uma inquietação varreu a cidade, que amanheceu eufórica. A procissão até Pilatos. Depois Herodes. Pilatos de novo. A turba engrossava enchendo as ruas. Os rostos fechados. Os olhares destilando ódio. As vozes histéricas, que uma semana antes cantavam: “Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor!”, agora vociferavam palavras de desprezo e rejeição: “Crucifica-O! Crucifica-O!” (Mt.27:1-26; Mc.15:1-15; Lc.23:1-25; Jo.18:28-40; Jo.19:1-16)

O horror da noite anterior cresce. Um julgamento pré-arranjado, injusto, parcial, ilegal. As punições físicas que levam o Seu corpo aos limites. O rosto desfigurado. As costas rasgadas. O peso da cruz, insuportável. A  caminhada solitária para a morte. (Mt.27:27-37; Mc.15:16-24; Lc.23:26-33)

Nas prisões, quando um condenado à morte vai a caminho da sua execução ouve-se o maldito refrão: “Dead man walking!” – homem morto passando. Era assim que todos O viam.

Os Seus sofrimentos culminam no Gólgota. As seis horas mais negras e gloriosas da história da Humanidade. Porque demonstram toda a fealdade do pecado no coração do Homem. Porque provam o Amor Sublime de Deus por aqueles que O rejeitam. Ali, pendurado entre o Céu e a Terra, Jesus começa o Seu papel de grande Mediador entre Deus e os Homens. (Mt.27:38-54; Mc.15:25-39; Lc.23:34-48; Jo.19:17-37)

Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!” (Lc.23.34) – Ele é o Intercessor, e estende perdão aos contritos.

Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lc.23:43) – Ele é quem pode conduzir o Homem a Deus e garantir a sua aceitação perante o Santo.

“Mulher, eis aí o teu filho. Eis aí a tua mãe. Ele cuidará de ti .” (João 19:26,27) – Ele é a fonte, a base, e a garantia do Amor e da perfeita comunhão.

“Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste.”  (Mateus 27:46) – Ele pagou a penalidade que nós merecíamos pelo nosso pecado. Desamparado, para poder amparar-nos.

Tenho sede.” (João 19:28) – Ele é o perfeito Homem, que tendo padecido todas as coisas, como nós, pode compadecer-se perfeitamente da nossa miséria e lutas.

Está consumado.” (João 19:30) – Ele satisfez a justiça de Deus. Venceu o pecado. Venceu Satanás. Venceu a Morte.

Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” (Lucas 23:46) – Ele cumpriu a vontade do Pai até ao fim, e a Sua obra agradou-Lhe em tudo.

A Terra reagiu violentamente à morte do Seu Criador. Revolveram-se as suas entranhas perante o horror da cruz. O universo apagou-se. As trevas encheram o mundo. Os homens que abandonam o Gólgota batem no peito e choram: “Este verdadeiramente era o Filho de Deus!” (Mt.27:54; Mc.15:39; Lc.23:47-48)

Matámos o Filho de Deus. E agora?

(continua→)

O triunfo da Cruz!

Jesus veio com um propósito. A sua missão estava definida desde a eternidade. As dificuldades que encontrou foram muitas. Logo no início do seu Evangelho, João diz-nos que Ele, a vida e luz dos homens veio a um mundo em trevas, mas não foi compreendido. Chegou ao mundo que Ele criou, mas não foi reconhecido. Veio aos seus, e estes não O receberam. (Jo.1:1-11) Ao longo da sua vida foram muitos os momentos em que teve de confrontar-se com a dureza da missão e com tentações descaradas e ás vezes subtis de soluções mais fáceis para atingir aparentemente o mesmo fim.

Vemo-lo num dia de festa, um casamento, rodeado de amigos e familiares. Um momento improvável para um teste. A sua mãe aproxima-se e segreda-lhe: “O vinho acabou”. Com alguma dureza Jesus responde: “Mulher, que tenho eu contigo? A minha hora ainda não é chegada!” Mas quando, seguramente movido pela pena aos noivos, transformou água em vinho, lemos que os seus discípulos creram nele.

Mais tarde, desviou-se do caminho habitual para se sentar na beira de um poço, na hora do calor mais duro, para se encontrar com alguém que precisava de ajuda. Conversou longamente com esta mulher samaritana, até que ela sai correndo de volta à cidade, chamando a todos e dizendo: “Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito: porventura não é este o Cristo?”

E muitos mais creram nEle por causa da sua palavra.

Quando um dia Jesus ensinava uma grande multidão, compadeceu-se deles e tomando alguns pães e peixes alimentou a todos até que ficassem satisfeitos. Entre a multidão ouvia-se: “Este é evidentemente o profeta que havia de vir ao mundo”. E queriam faze-lo rei. Quando no dia seguinte Jesus viu que ainda o seguiam disse-lhes: “Não me buscais pelos sinais que vistes, mas porque comestes e vos saciastes.” E muitos viraram costas e O abandonaram.

A notícia chegou deixando todos constrangidos. Um dos melhores amigos de Jesus tinha morrido. Lázaro estava morto. Jesus comoveu-se. Chorou. Mas quando se pôs diante do sepulcro onde o morto jazia há 4 dias e o chamou pelo nome, Lázaro saiu para fora. Muitos creram nele.

A novidade espalhou-se como fogo em terra seca, e quando Jesus chega a Jerusalém uma semana antes da Páscoa é recebido por uma multidão em êxtase, gritando e dançando nas ruas, trazendo folhas de palmeira e aclamando: “Bendito o rei de Israel, que vem em nome do Senhor”.

Na mente de todos ecoava uma certeza: MISSÃO CUMPRIDA! Na de todos, menos na de Jesus. Nada fazia prever que menos de uma semana depois Jesus se deixaria prender sem motivo, se submetesse a um julgamento ilegal, com acusações falsas, suportasse os castigos, o chicote, os murros, as cuspidelas, os insultos, as blasfémias, tomasse uma cruz que não era sua, e estivesse agora ali, no topo do Calvário suspenso entre o céu e a terra, desfigurado pela dor dos cravos e do chicote, e da ira do Pai.

Teria sido fácil para Jesus levantar multidões atrás de si. Era Ele que podia satisfazer todas as necessidades, falar ao mais profundo da alma, extinguir a fome no mundo, curar todas as doenças e até ressuscitar mortos. Ninguém lhe resistiria. Mas não foram esses problemas que Ele veio primariamente a resolver, mas um mais grave do que estes. O PECADO.

Jesus disse: “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum se perca. Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna” (Jo.6:38-40)

Quando muitos já desciam o monte cabisbaixos e derrotados, pensado que tudo estava acabado, Jesus há quase 6 horas na cruz, reúne as suas forças,e solta um brado que ressoa. O que Ele disse era improvável, estranho, e contra tudo o que se podia esperar: ESTÁ CONSUMADO! Este não foi um queixume derrotista nem um lamento. Não foi um: “está tudo acabado” “é o fim” “não posso mais”. Das 7 vezes que Jesus falou na cruz, apenas em duas ocasiões ele “clamou com alta voz”. Um destes gritos foi de desespero e abandono: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” O outro de absoluto triunfo: “Está consumado!” Os dois momentos decisivos: o suportar do castigo e a vitória! Estava tudo feito. A missão foi levada até ao fim. Não era preciso acrescentar mais nada. Todas as profecias a respeito do Messias estavam cumpridas. Está consumado. Todo o trabalho que o Pai lhe deu a fazer estava feito. Está consumado. A expiação pelos pecados realizada. Está consumado. A possibilidade de perdão eterno. Está consumado. O poder do pecado anulado. Está consumado. A morte vencida. Está consumado. Satanás derrotado para sempre. Está consumado. A vida eterna. Está consumado.

Muitos séculos antes Isaías, o profeta, escreveu a respeito do Cristo: “Quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. O trabalho da sua alma verá, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos: porque as iniquidades deles levará sobre si.” (Is.53:10-12)

Imagino Jesus exausto, no limite das suas forças. A separação do Pai era dor insuportável. E o castigo. Os cravos. Os insultos. A incompreensão. Mas perto do fim Ele ergue o seu olhar e vê mais além, onde só Ele podia ver. São muitas caras. De todas as tribos, povos, línguas e nações. Tantas que são uma multidão. Tantas que ninguém pode contá-las. Mas Ele conhece a todos pelo nome. Vê-me também a mim. E a ti. E ficou satisfeito.

E no limite daquilo que podia suportar, ergue-se sobre os cravos e solta o brado final: ESTÁ CONSUMADO!

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“E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas. E acharam a pedra revolvida do sepulcro. E, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes. E, estando elas muito atemorizadas, e abaixando o rosto para o chão, eles lhes disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, Dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite.

E lembraram-se das suas palavras.”

(Lucas 24:1-8)