Segredos não muito secretos

Li uma notícia (podes ler aqui) que tem tanto de misterioso como de macabro. Em Collooney, na Irlanda, uma árvore centenária com pelo menos 200 anos caiu com a violência de uma tempestade. Até aqui nada de extraordinário. A história adensa-se quando um esqueleto foi descoberto debaixo das suas raízes. O esqueleto foi identificado como pertencendo um jovem entre 17 a 25 anos e, segundo as datações realizadas terá morrido algures ente 1030 e 1200 D.C.

Foto por Marion Dowd
Foto por Marion Dowd

A morte está envolta em mistério uma vez que os restos mortais apresentam sinais de violência provavelmente causados por uma espada ou faca. Desconhece-se as circunstâncias da morte, se numa batalha ou disputa local, embora a tese de homicídio não seja descartada uma vez que não há nas imediações sinais de civilização – um cemitério ou igreja, p.ex. – e o corpo foi enterrado numa sepultura pouco profunda.

Mas, o que é que um homicídio cometido há 1000 anos tem a ver comigo? – estás tu a pensar. Muito, respondo eu.

Quando li a notícia a primeira coisa que me veio à mente foi uma afirmação de Jesus:

Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido.
Lucas 12:2

A notícia é uma parábola do modo como tendencialmente lidamos com o nosso pecado. Deixa-me explicar:

  1. Esconder o pecado é a melhor maneira de resolver um problema. O eventual homicida pensou que enterrando o cadáver nunca seria descoberto. Esconder o corpo não me livra de ser um assassino.
  2.  Esconder o pecado permite-me manter a reputação. Se ninguém souber que eu fiz aquilo que fiz não vão pensar mal de mim. Nesse momento tornamo-nos hipócritas, esforçando-nos por parecer piedosos quando, na verdade, a nossa alma é negra e suja.
  3.  Esconder o pecado permite-me escapar do castigo. “Sem corpo não pode haver homicídio.” É uma frase recorrente nos filmes e séries policiais. Sem provas concretas o alegado homicida não pode ser condenado e escapa do justo castigo.

A declaração de Jesus foi proferida para expor a hipocrisia dos fariseus. Os fariseus eram homens religiosos que mantinham uma aparência pública de santidade mas que, em segredo, e no oculto, podiam ser tão ou mais perversos do que os outros que eles julgavam com ares de superioridade moral. O alerta simples do Senhor foi este: a verdade não pode se escondida para sempre. Um dia toda a verdade sobre quem somos, o que fazemos, o que pensamos e sentimos será declarada abertamente. Nesse dia, nenhum de nós poderá esconder-se ou desculpar-se. Embora possamos escapar ao juízo dos homens, não prevaleceremos diante do Justo Juiz.

Confessei-te o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado. (Selá.) Salmos 32:5

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Em Cristo

A transformação operada por Deus na vida daqueles que crêem é tão profunda que a Bíblia fala dela em termos de uma nova identidade. Há uma vida velha que corresponde a uma identidade velha e corrupta, que dá lugar a uma nova vida em Cristo. Em nenhum lugar das Escrituras esta nova vida é apresentada como existindo além, fora ou à parte de Cristo. É em Jesus Cristo, na Sua vida, que encontramos a realidade da nossa nova identidade. Mais de 100 versículos por todo o Novo Testamento nos falam directamente dessa transformação que é estar em Cristo (ver infográfico).

Em Cristo

Por diversas vezes somos exortados pelas Escrituras a assumir frontalmente e com ousadia essa nova identidade. Quero recordar-vos dois textos em que o próprio Jesus nos desafia.

Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.
Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.
Mateus 10:32-33

Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos.
Lucas 9:26

Estes desafios e avisos solenes de Jesus surgem num contexto particular – Jesus estava a enviar os seus discípulos ao mundo como Suas testemunhas. Muitas dificuldades e desafios à fé surgiriam, e era precisamente nesses momentos que os discípulos iriam mostrar a sua verdadeira identidade. Confessar ou negar a Cristo? Ter vergonha ou ser ousado? As tribulações que viriam separariam os verdadeiros filhos de Deus daqueles que O seguiam com motivações humanas.

O que significa confessar a Cristo?

Confessar a Cristo é mais do que palavras. É a atitude activa de reconhecer a Jesus Cristo na minha vida quer por palavras quer por actos. Saliento três implicações de confessar a Cristo:

  1. Confessar o nosso pecado e incapacidade de nos salvarmos a nós mesmos. É uma declaração de falência e fracasso. Mas, ao fazê-lo entramos no gozo das promessas de Deus (1Jo.1:8-10)
  2. Confessar que a nossa esperança de salvação está em Jesus Cristo e na obra que Ele realizou na cruz. É uma declaração de rendição. Mas, esta é a rendição que nos garante a vitória (Rm.10:9-13)
  3. Confessar que a nova vida que vivemos não é na nossa força mas pelo poder da Sua vida em nós. É uma declaração de propósito, vivemos para a sua glória (Gl.2:20).

O que significa envergonhar-me de Cristo?

A questão da vergonha vai fundo nos nossos corações. Ela discerne as intenções e motivações. O nosso prazer deve ser gloriar-nos no Senhor. Isso significa alegrar-nos, ter orgulho e vaidade por Ele, desejar mostrar a todos quem Ele é. A vergonha é a negação de toda a transformação do nosso coração. Três áreas em que muitas vezes nos envergonhamos do Senhor:

  1. Colocar os meus interesses acima dos dele (Lc.9:23, Mt.10:37-39). Ao fazer isto estou a dizer que a minha vontade é melhor do que a dele. Que me satisfaço mais em seguir o meu coração do que em agradá-lo.
  2. Colocar a minha segurança acima da Sua glória. (Lc.9:24, Mt.10:34-35). Quando escondo o facto de que sou cristão ou quando faço alguma coisa que sei que não devo só para não ser prejudicado, mostro que não estou disposto a sofrer por amor d’Ele. Na prática, estou a dizer que o meu nome é maior (mais importante) do que o Seu Nome.
  3. Considerar a obediência à Sua vontade como um fardo. Muitos obedecem a Deus por obrigação, por medo ou até por interesse. Poucos são os que encontram satisfação em agradar-lhe só porque Ele é digno. Consideramos a vontade de Deus e parece-nos que Deus só diz: “Não!” A vontade de Deus é entendida como uma limitação à nossa, e por isso estamos sempre em confronto com Deus. Mas, não precisa ser assim, pois o seu fardo é leve e o seu jugo suave (Mt.11:28-30)

É tempo de assumir a nossa identidade. Sem vergonha. Sem medo. Com ousadia. Confessando alegremente a Cristo.

Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. (Rm.6:11)

Confissão: lições de uma criança

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.
1 João 1:9

Amo muito todos os meus filhos. Cada um deles é único e um fascínio para mim. Hoje, o J. e eu tivemos uma boa conversa. E, eu aprendi uma profunda lição espiritual.

O J. é um menino de coração puro. Ele reage com sinceridade e urgência aos seus erros e à injustiça. Hoje, quando nos preparávamos para sair de casa, reparei que o casaco dele estava sujo. Perguntei-lhe como o tinha sujado e ele respondeu que tinha acidentalmente vertido iogurte. Não o repreendi, mas, ao sairmos da porta, ele confessa espontaneamente que não tinha sido ele a verter o iogurte, e sim um colega de turma.

Percebi imediatamente que a história ainda estava a começar. Sem tecer grandes comentários deixei-o falar livremente. Durante aproximadamente metade do percurso para a escola ele descreveu-me o mau comportamento do seu colega que gosta de atirar coisas por cima do muro da escola. Foi assim que o iogurte foi parar ao casaco! De defender o colega, ele passou rapidamente a atribuir-lhe todas as culpas.

Subitamente, ele diz: ” Sabes, papá… – um pai sabe sempre que depois destas palavras não vem nada de bom 😉 – o A. ensinou-me a atirar as coisas por cima do muro, por isso eu também atirei. Mas, foi ele que me ensinou!” E, pronto: a confissão final!

Visivelmente frustrado pelo seu mau comportamento e pela tentativa de o encobrir, a confissão abriu caminho ao arrependimento e à resolução de mudar de atitude.

Não consigo expressar como me senti orgulhoso dele. E, como me senti ensinado pelo Senhor. Recordei o texto de 1 João citado acima. E, do Salmo 51, que, por coincidência, foi a base do excelente sermão desta noite na IEAveiro (obrigado, Daniel). Obrigado, Deus. Ajuda-me a aprender esta lição.

Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.
Salmos 51:10

O processo :: Devocional

1.Abr :: Provérbios 16:5,6

Segundo a Wikipédia, PROCESSO (no latim procedere é um verbo que indica a acção de avançar, ir para a frente (pro+cedere)) é o conjunto sequencial e peculiar de acções que têm como objectivo atingir uma meta.

Quase tudo na vida deriva de processos. A confecção de uma refeição. O funcionamento de um motor. A gestão de uma empresa. A biologia de um corpo. Mesmo nos nossos relacionamentos inter-pessoais podemos reconhecer a dinâmica básica de um processo. Creio que isso resulta da ordem com que Deus fez todas as coisas.

O nosso relacionamento com Deus também é um processo. Há um passo inicial, e uma sequência de outras decisões, que culminam num objectivo final. Os versículos de hoje falam disso:

  • Mudança de coração, ou arrependimento. Não é possível chegar a Deus sem essa atitude de humildade diante dEle. Não é uma encenação exterior, mas uma revolução do coração. Um desejo de mudança. Um desgosto com o pecado. Uma emergência por salvação.
  • Confissão. O perdão vem pela misericórdia e pela verdade. O arrependimento leva à confissão do pecado e ao apelo à misericórdia de Deus.
  • Santificação. A sinceridade nos passos anteriores conduz inevitavelmente à última parte do processo: o desejo de nunca voltar atrás. Colocar Deus como a prioridade, temê-Lo, afasta-nos do pecado.

A verdadeira conversão é como uma reacção em cadeia – uma vez iniciado o processo não é possível travá-lo, uns passos sucedem aos outros até atingir o objectivo final. Apesar disso muitos tentam travar e parar a obra de Deus nas suas vidas.

  1. Em que parte do processo estás tu?
  2. Que coisas têm travado o teu progresso?
  3. Fica por momentos em oração diante de Deus e reavalia o teu relacionamento com Ele. Deixa que Ele te mostre qual o próximo passo a dar no teu processo de nova vida em Cristo.

Do pecado e da culpa :: Devocional

12.Mar :: Provérbios 5:21-23

“O estado de pecado no homem não é um facto, senão apenas a interpretação de um facto, a saber: de um mal-estar fisiológico, considerado sob o ponto de vista moral e religioso. O sentir-se alguém «culpado» e «pecador», não prova que na realidade o esteja, como sentir-se alguém bem não prova que na realidade esteja bem.”
Friedrich Nietzsche, in ‘Genealogia da Moral’

O Homem sempre teve dificuldade em lidar com o seu pecado. Racionalizamos. Desculpamo-nos. Desresponsabilizamo-nos. Tudo menos assumir a nossa miserável condição. Mas, o pecado não tem a ver com sentimentos, sensações, opiniões, ou razões. O facto de sermos pecadores é decretado pelo Único com autoridade para tão solene proclamação – o DEUS SANTO E PERFEITO em quem não há fallhas. Somos pecadores não por comparação com os nossos pares – eles mesmos pecadores como nós – mas, por comparação com Deus. E, nesta posição só podemos concluir uma coisa:

“Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos.” (Isaías 6:5)

  1. Examina a tua vida e reflecte qual tem sido a tua atitude perante o pecado.
  2. Deus sempre condenará o pecado e, no fim, o pecador não arrependido. Por que é que podemos afirmar que mesmo condenando o pecador, Deus permanece justo? Isso não contradiz o Seu Amor, Graça e Misericórdia? Porquê?
  3. Pede a Deus que te dê uma maior sensibilidade quanto ao pecado. Pede-Lhe que te dê o arrependimento. Confessa. Muda de direcção.