Aleluia! Que Salvador!

Leitura recomendada: Mateus 27:33-44; Marcos 15:22-32; Lucas 23:32-43

As seis horas mais negras da História começam com duas afirmações de Graça e Perdão.

A primeira é uma expressão do espírito manso e humilde de Jesus: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.”. O exemplo de Jesus de amar os inimigos e estender perdão aos que ofendem tem sido a marca dos mártires ao longo dos séculos. Lembremo-nos de Estevão que, ao ser apedrejado, rogava a Deus pelo perdão dos que o maltratavam. Lembremo-nos de Corrie ten Boom, uma filha de Deus enviada para um campo de concentração nazi por acolher e esconder judeus durante a II Guerra Mundial. Anos mais tarde, tendo sobrevivido aos horrores da guerra, no final de um culto numa igreja em Munique durante o qual falara sobre o Deus que perdoa, vê um homem caminhando na sua direcção. À medida que ele se aproxima, as memórias dos sofrimentos passados são reavivadas pelo rosto familiar. Tratava-se de um dos guardas do campo onde estivera prisioneira. O seu corpo tremia todo. A mente acelerava, o coração quase saía do peito. Quando o homem finalmente chega perto dela, apresenta-se como um dos guardas do campo de concentração onde ela estivera detida. Ele não a reconhecia – talvez porque na bestialidade dos horrores praticados era mais fácil não atribuir rostos a quem se tratava com tanta desumanidade. O homem conta que após o fim da guerra conhecera a Cristo e encontrara n’Ele perdão para o seu passado sombrio. Agora, ele também era um cristão. “Vim para pedir-lhe perdão!”, disse o homem. Corrie sabia o que devia fazer mas sentia-se incapaz de o fazer. No seu íntimo rogou a Deus que a ajudasse, e estendeu a mão. Uma sensação de paz interior e amor inundou ambos no toque perdoador.

Muitas outras histórias poderiam ser contadas. O perfume suave da Graça tem sido levado a todo o lado pela Igreja. Confiados na Justiça de Deus, deixamos a vingança (leia-se, a reposição da justiça) nas mãos do Senhor, e entregamo-nos ao amor, à paz e ao perdão.

A segunda expressão da Graça, porém, não está ao alcance de nenhum Homem. Jesus responde ao apelo de um dos crucificados e diz: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso.”. Este estender de perdão ultrapassa as injúrias antes proferidas contra Ele. O que está em causa não é a ofensa particular e pessoal contra o homem Jesus, mas uma vida inteira de pecado numa ofensa ignóbil e monstruosa contra o Deus Santo. Nenhum Homem pode conceder tal perdão, apenas Deus tem poder para perdoar os pecados. Pendurado na Cruz, acusado de heresia pelos líderes judeus, Jesus assume totalmente a Sua Missão e a Sua Natureza. Ele é totalmente Deus. Ele fez-se homem com um propósito. Ele veio para salvar os pecadores. Ali, mesmo no momento em que, pelo Seu sacrifício voluntário, cumpria todas as exigências de justiça da Santidade divina – que é digno de morte aquele que pecar, Jesus concede, sem preço, pela Graça, mediante a Fé, o dom da Vida Eterna que só pode ser dado ao que crê, a um homem que merecia o castigo e nunca teria oportunidade de praticar nenhuma boa obra que mudasse o seu destino.

Em nenhum outro momento de que me lembre, o escândalo da Graça foi mais evidente. Outros homens maus têm encontrado o perdão. O nazi que se rendeu a Cristo. O zeloso Saulo, perseguidor da Igreja e de Cristo, que ficando cego na estrada para Damasco, viu pela primeira vez a glória excelente d’Aquele a quem perseguia. Paulo teve que enfrentar as dúvidas dos cristãos quanto à credibilidade da sua conversão. Só com a evidência do seu viver transformado foi, aos poucos, aceite pela Igreja. Embora confessemos nos nossos Credos que a Salvação é pela Graça e mediante a Fé, não pelas obras ou méritos de cada um, mas exclusivamente pelos méritos de Cristo, o nosso sentido inato de auto-piedade e justiça própria insiste em convencer-nos que, lá no fundo, conseguimos provar a Deus que Ele não se enganou quando nos perdoou. É que nós até merecíamos. Certamente não temos a ousadia de colocar este sentimento em tantas palavras, mas, o incómodo que sentimos quando um “grande” pecador é perdoado é sinal evidente do que vai no nosso coração. É por essa razão que o Catolicismo Romano criou a ideia do purgatório. O papa Paulo VI disse: “Cremos na vida eterna. Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo – quer ainda tenham que fazer expiação no fogo do purgatório, ou desde o momento em que deixam os seus corpos sejam recebidos no Paraíso por Jesus Cristo, tal como o bom ladrão – vão formar o Povo de Deus que vence a morte, a qual morte será totalmente destruída no dia da Ressurreição quando estas almas forem reunidas aos seus corpos.” (Creed of the People of God, 28). O perdão do bom ladrão, como lhe chama, é visto como a excepção única e irrepetível, de alguém que foi integralmente perdoado sem oportunidade de mostrar boas obras. Todos os outros casos terão de fazer a “sua expiação” no purgatório. Esta heresia faz tamanha violência ao acto salvífico de Cristo que o destrói por completo. Se somos incapazes de crer na declaração de Jesus que diz: “Na verdade te digo…” como creremos em todas as outras coisas que Ele declarou solenemente?

Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. João 5:24

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. João 6:47

Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. João 12:24

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. João 14:12

Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. João 16:20

E naquele dia nada me perguntareis. Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar. João 16:23

Ao mesmo tempo que o nosso “fariseu interior” se incomoda, há uma consolação inexcedível nesta promessa de Jesus: há Graça abundante e Perdão para todos os que vierem.

Todas as vozes que se ouviam no Calvário eram contrárias a Jesus. Os líderes judeus. A multidão. Os soldados romanos. E, segundo Mateus e Marcos, os dois malfeitores crucificados ao lado de Jesus, todos blasfemavam dele e O insultavam. Mas, não eram só as palavras que O feriam. O título colocado sobre a sua cabeça: “Este é o Rei dos judeus” era uma humilhação. A coroa de espinhos que se cravava no crânio. A cruz do meio, entre dois conhecidos malfeitores, fazendo-O o principal entre eles. Nenhuma destas armadilhas tenebrosas e diabólicas poderia, no entanto, impedir a Obra gloriosa que se operava naquelas horas. A Cruz do meio torna-se cada vez mais central. A atitude do homem lá pendurado deixa todos perplexos. A conversa dos dois salteadores torna-se a parábola perfeita do Evangelho.

Enquanto um dos ladrões insiste na blasfémia, o outro detém-se. Os dois viam o mesmo Cristo, na mesma Cruz, dizendo as mesmas coisas. Mas, o efeito que isso teve num e noutro demonstra o modo como as pessoas reagem ao Evangelho: uns com indiferença e endurecendo cada vez mais o coração, outros sendo conquistados pelo amor chegam ao arrependimento e à fé. Não sabemos exactamente o que fez aquele homem mudar de ideias. Ele que momentos antes injuriava a Jesus agora defende-o. Talvez tenha sido o silêncio manso com que Jesus suportava a afronta. Talvez as palavras de perdão que estendeu aos que O cravavam na Cruz. Talvez a tábua sobre a Sua cabeça que o proclamava como Rei. Talvez alguma lembrança dos actos de bondade e misericórdia que praticou. Talvez tudo isso. Em meio à loucura desenfreada do Gólgota, ele viu em Jesus um homem diferente, uma promessa diferente, uma esperança real.

R. C. Sproul definiu arrependimento assim no seu livro “O que é o arrependimento”: “O conceito central do arrependimento no Antigo Testamento pode ser resumido numa palavra: conversão. Esta palavra faz parte da linguagem habitual dos Cristãos e é o ponto focal do chamado profético ao arrependimento. Ninguém nasce Cristão. Para que alguém se torne um Cristão, alguma coisa precisa acontecer que transforme radicalmente essa pessoa. Isto está ligado ao conceito bíblico de metanoia, uma mudança de mente que não é apenas um ajuste intelectual a um conceito, mas a mudança da nossa vida inteira. Para o profeta, o arrependimento não é meramente um ritual religioso, mas a conversão integral da alma. Significa a mudança total do nosso ser.” Será que esta definição pode ser aplicada ao ladrão na Cruz? Pode alguém que morreu algumas horas depois demonstrar tal arrependimento?

Consideremos os acontecimentos. Ele silenciou as suas blasfémias. Condenou o outro por injuriar a Jesus. Admitiu a sua culpa e merecimento do castigo. Exortou o outro a arrepender-se. Confessou que Jesus estava a ser castigado injustamente porque era inocente. Reconheceu Jesus como Senhor. Creu na eternidade. Desejou passar essa eternidade com Jesus. Creu na vitória de Cristo mesmo vendo-o pendurado na Cruz. Desejou estar com Cristo para sempre e não apenas ver-se livre da sua cruz, como o outro ladrão. Humildemente, apenas foi capaz de pedir: “lembra-te de mim…”. Este homem mostrou tantos frutos de arrependimento quantos a sua situação peculiar lhe permitia. Não foi batizado. Não tomou parte da Ceia do Senhor. Não testemunhou da fé. Não praticou boas obras. Fez aquilo que podia fazer e, afinal, a única coisa que era necessário fazer: creu. E isso lhe foi imputado por justiça.

Ao seu rogo Jesus respondeu com perdão e esperança. “Na verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso.”. O estar é afirmado. A comunhão com Ele é afirmada. A felicidade eterna e consciente é afirmada. O tempo é afirmado. HOJE. Assim que os seus olhos se fechassem neste mundo, ele entraria no Descanso. O maior terror daquele homem – a morte – foi naquele momento vencido pelas palavras consoladoras de Jesus. Do outro lado, estaria Jesus para recebê-lo no Paraíso.

Mas, como? Porque Jesus se recusou a ceder à tentação do diabo no deserto quando lhe prometeu todos os reinos do mundo se o adorasse. Porque Jesus orou no Getsémani: “Faça-se a Tua vontade e não a minha”.  Porque Jesus se entregou em silêncio nas mãos dos acusadores. Porque não saiu da Cruz quando foi desafiado. Porque olhou aquele ladrão que lhe pedia perdão e tomou sobre si os pecados dele – e tantos que eram –  para suportar na sua vez o castigo e a ira do Pai. Porque suportou o castigo até ao fim e disse: “Está consumado!”. O maior acto de justiça praticado no Calvário naquele dia não foi o do ladrão arrependido, foi de Cristo. Por isso, tomamos o ladrão como exemplo de arrependimento, confissão e humildade, mas celebramos a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Só Ele é digno do nosso amor. Só Ele merece a nossa gratidão. Só Ele deve ser adorado. Porque fomos salvos da mesma maneira do que aquele ladrão. Tal como a Reforma trouxe de novo à luz: Sola Gratia, Sola Fides, Solus Christus. Somente a Graça. Somente a fé. Somente Cristo. Para que também, tanto hoje como eternamente, Soli Deo Gloria, Somente Glória a Deus.

Termino com um poema de Phillip P. Bliss: “Hallelujah! What a Savior!” (Aleluia! Que Salvador!)

“Homem de Dores!” que nome

Para o Filho de Deus, que veio

Pecadores arruinados reclamar.

Aleluia! Que Salvador!

Suportando a vergonha e o rude escarnecer

No meu lugar condenado ficou

Selou o meu perdão com seu sangue

Aleluia! Que Salvador!

Culpado, vil e sem esperança era eu;

Cordeiro de Deus sem mácula era Ele;

Salvação completa! Poderá ser?

Aleluia! Que Salvador!

Levantado para morrer Ele foi;

“Está consumado” o seu clamor;

Agora no Céu está exaltado.

Aleluia! Que Salvador!

Quando Ele vier, o nosso Rei glorioso

Todos os seus remidos para Casa levar

Esta nova canção cantaremos:

Aleluia! Que Salvador!

Pai, perdoa-lhes…

Esta era a hora. Dos homens. E do poder das trevas. A elite religiosa da Judeia rejeitou, prendeu, acusou, julgou e determinou matar Jesus. A turba histérica antes em êxtase com os milagres agora vocifera: crucifica-O. O poder político de Roma despreza o insignificante judeu acusado de ameaçar o domínio do Império.

De alguma forma todos nós estávamos representados naquele dia. No apego ao poder, à “liberdade” de poder escolher o nosso rei. No egoísmo cego de querer as bênçãos sem a obediência. Na rejeição da Luz porque preferimos amar o pecado nas sombras. Cada um de nós crucificou a Jesus.

Nas seis horas que esteve no Calvário Jesus falou por sete vezes. As primeiras palavras subiram para o Pai em favor dos Seus algozes. “Pai, perdoa-lhes…” A comunhão de Jesus com o Pai não podia ser mais íntima ou profunda. Ele estava no princípio com Deus. Ele e o Pai são Um. O prazer de Jesus é fazer a vontade do Pai. O prazer do Pai é o Seu Filho Amado. Antes da fundação do mundo Jesus, o Cordeiro de Deus estava preparado para esta hora. Isso, no entanto, não diminuia o sofrimento nem o terror dos acontecimentos. No Getsmani, Jesus orou com suor de sangue e lágrimas: “Pai, se possível, passa de mim este cálice.” Não lhe passava pela cabeça fugir da sua missão. Ele buscava o conforto do Pai, e teve-o. Agora, de alguma maneira era Jesus quem confortava o Pai. Imagina, por momentos, o que Deus, o Pai, sentia ao ver o Seu Filho amado maltratado daquela forma. Nós, que somos maus, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos. Erguemo-nos como leões na defesa daqueles que amamos. Quanto mais Deus, o Pai celestial! Apesar, de lhe ter “agradado moê-lo” não houve nisso nenhum sentimento perverso ou sádico. O sofrimento de Jesus não lhe era indiferente. Foi tolerado porque Deus sabia o fruto que viria daí. E que glorioso fruto! Tal como Jesus buscou conforto para suportar o horror da cruz, o Pai encontrou conforto na obediência fiel do Filho que lhe suplica: “Pai, retém a tua ira. Não os destruas. Não os firas. Eu cumprirei a missão até ao fim. Eu estou pronto. Perdoa-lhes!”

Jesus sabia do custo do perdão. Mesmo assim, ele pede. O perdão divino não é um olhar para o lado. Não é possível a Deus ignorar as nossas ofensas. “A alma que pecar essa morrerá”. O pecado é uma ofensa tão grave à santidade, à justiça e ao Amor de Deus que as suas consequências são na mesma proporção: morte. Cada um dos teus pecados é uma sentença de morte. Não somos maus porque cometemos muitos pecados. Há uma perversidade na mentira que contamos a nós mesmos quando nos compararmos uns com os outros – a de que somos bons. Um pecado, um único pecado, pequeno que seja aos nossos olhos, recebe o mesmo castigo que mil pecados, ou dez mil, ou os mais de 65 mil que já terei cometido ao ritmo de cinco a cada dia dos meus 36 anos. Uma mentira igual a um roubo. Um mau pensamento igual a um estrupo ou adultério. Um rancor igual a um homicídio. Onde está a justiça nisso, clamamos? O nosso escândalo é natural. Ainda nos julgamos bons. Para compreender a severidade do castigo é preciso considerar a dignidade do ofendido – o Criador, o Sustentador e Soberano sobre todas as coisas, a fonte de todo o Bem, o Santo, a Verdade, a Justiça, o Amor perfeito, Deus. O teu pecado é digno de morte. A dívida de justiça terá que ser paga. Vida por vida, foi assim que Deus ensinou desde a Queda. Para que um seja perdoado outro deve morrer em seu lugar. Primeiro, foram os sacrifícios dos animais. Agora, um novo sacrifício é preparado. “Perdoa-lhes…” pede Jesus. “Eu pago a dívida.” Paulo ao escrever aos Colossenses diz: “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz.” (Cl.2:14) Cada um dos teus pecados levou Jesus à cruz. Ali, ao invés de clamar ao Pai para que envie as Suas legiões e O livre dos seus inimigos, Jesus entrega-se como o sacrifício que trará perdão àqueles que O poem à morte. Aos judeus. Aos romanos. A mim. E a ti.

Eles não sabem o que fazem.” João narra a Encarnação dizendo que a verdadeira Luz, Jesus, veio ao mundo, mas o mundo não O conheceu nem compreendeu. Vai mais longe e diz que Jesus veio para o que era seu, mas os seus não O receberam. Como explicar a rejeição de Jesus? Os judeus aguardavam com tanta ansiedade e expectativa a chegada do Messias, como é possível que, quando Ele veio, e apesar de todos os sinais e maravilhas, e do cumprimento de tantas profecias na Sua vinda, não O tenham reconhecido e celebrado a Sua chegada? O próprio Jesus oferece explicação: “São cegos, guias de cegos.” (Mt.15:14) A sua cegueira é fruto do pecado e da acção directa do deus deste século, o diabo, que “cegou os entendimentos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2Cor.4:4) “Eles não sabem o que fazem.” Estará Jesus a insistir no perdão dos seus inimigos porque eles, coitados, não são responsáveis pelo que fazem? Longe disso. Podemos não entender a total severidade da nossa culpa ou a profundidade da nossa responsabilidade perante Deus, mas sabemos distinguir entre o Bem e o mal, a Justiça e a injustiça, a Verdade e a mentira, a Bondade e o egoísmo e maldade, a Pureza e a perversidade. Cada um de nós sabe da sua culpa perante Deus. A nossa cegueira maior não está em que não possamos ver a Luz, mas em que vendo amamos mais as trevas. Jesus disse que não nos chegamos à Luz para que as nossas obras más não sejam manifestas. Amamo-nos mais a nós do que a Deus. Esse é o problema fundamental do pecado. Desde a Queda que a grande sedução do pecado e da rebeldia contra Deus é que queremos ser nós mesmos deuses. Nessa senda tenebrosa, escolhemos não glorificar a Deus, não Lhe dar graças, mudamos a Sua glória, diminuindo-O, trocamos a Sua verdade por mentiras (Rm.1). Escolhemo-nos a nós e não a Ele. E somos inteiramente responsáveis por essa escolha. “Eles não sabem o que fazem.” Estamos de tal modo embriagados pelo pecado que não compreendemos o alcance da nossa rejeição do Cristo. Não conseguimos olhar para Ele como totalmente desejável. A mentalidade do Jardim do Éden ainda domina o nosso coração. Tantos milénios depois ainda julgamos ser possível alcançar a promessa da serpente e “ser como Deus”.

Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem.” Jesus entrega-se como substituto daqueles que O odiavam. Ele sabe que ao ser levantado naquele madeiro atrairia muitos a Si. A Cruz é o brilho máximo da Sua Luz. Nela, Jesus triunfou publicamente sobre os Seus inimigos. Tal como o irmão Max Lucado escreveu:

“Nunca aqueles braços se abriram num abraço tão grande como quando estavam naquela cruz romana. Um braço estendendo-se para trás na história e o outro alcançando o futuro. Um abraço de perdão oferecido a todos os que vierem. A galinha ajuntando os seus pintos. O pai recebendo os seus filhos. Um redentor redimindo o mundo. Não admira que o chamem Salvador.”

A essência da vida

Leitura recomendada: João 1:1-5

Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. João 1:4-5

No filme “Mentes perigosas” uma professora é colocada numa escola problemática. O contexto social é difícil: segregação social e racial, pobreza, drogas e violência de gangues, marcam as vidas dos jovens que não facilitam a vida dos professores. Esta professora decide adoptar uma abordagem alternativa de ensino para conquistar os seus alunos. Com o tempo, a estratégia dá os seus frutos. No final do ano lectivo, quando se despede dos alunos diz-lhes que não vai voltar no ano seguinte. Os alunos não aceitam e fazem um apelo emotivo para que ela fique com eles. Quando um colega lhe pergunta o que a fez mudar de ideias, ela responde: “Eles disseram que eu era a sua luz!” A vida é mais do que a existência. É mais do que a biologia, química e física que faz funcionar os nossos corpos. Deus fez-nos com uma alma e um espírito. É isso que nos lança na busca de um propósito, de satisfação e realização, em suma, da felicidade. A resposta ao nosso anseio está somente n’Ele – Jesus, porque Ele é a Vida.  A Sua Vida é tão excelente e majestosa que se manifestou radiante e indisfarçável ao Homem. A Sua Luz atrai-nos a Ele, a fonte da Vida. A Luz encontrou-nos na nossa miséria e trevas. Sem esperança. Sem futuro. No contraste entre Ele e nós, a Luz e as trevas, a Vida e a morte, Ele surge mais admirável e glorioso, e nós, mais indignos e necessitados. A Luz incomoda os que estão nas trevas. Eles não a compreendem. Não podem dominá-la. Subjugá-la aos seus interesses. Por isso, muitos se escondem dela. Mas, há outra escolha. Nas trevas, a Luz aponta o caminho. A saída. O lugar de esperança. O futuro. No filme os alunos viram isso na professora e não quiseram perdê-la. Na vida, é em Jesus que encontramos o futuro. A Sua Luz mostra-nos “o Caminho, a Verdade, e a Vida” (Jo.14:6) e todos apontam numa direcção – Ele mesmo, o único que pode levar-nos ao Pai.

O Criador

Leitura recomendada: João 1:3

Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
João 1:3

O Criador visita a Sua criação. Desde o princípio, quando Deus criou todas as coisas, Ele ama a Sua criação. No relato de Génesis sentimos o prazer de Deus em trazer à realidade as coisas que enchiam a Sua mente. Os astros. Planetas. A Terra. Montanhas e mares. Plantas e animais. O Homem. “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom.” (Gn.1:31)

Deus nunca abandonou a Sua criação. Ele é o sustentador de todas as coisas (Hb.1:3). É Ele quem ordena o caminho das estrelas no céu. Quem faz chover sobre justos e injustos. Quem faz resplandecer a Sua glória desde os céus. Ele esteve connosco desde o princípio. Primeiro, visitando Adão e Eva no Jardim. Após a Queda, visitando incontáveis homens e mulheres, revelando-Se pouco a pouco. De muitas maneiras.

Agora, no entanto, Ele visita-nos de forma inteiramente nova. O Criador faz-se semelhante à criatura. Humilha-se. Esvazia-se. Toma a forma de homem (Fl.2:5-7). E, fala connosco (Hb.1:1). Deus fala-nos pelo Filho. O Verbo. Jesus. Esta visita lembra-nos duas coisas: primeiro, a gravidade da nossa condição pecadora e a nossa obstinação e rebeldia em não ouvir a Sua voz nas visitações anteriores. Por outro lado, o Amor imparável do Deus que nos fez e que não desiste de nós nem que para isso tenha que sacrificar-se a Si mesmo.

Chamado à comunhão

Leitura recomendada: João 1:1-2

Ele estava no princípio com Deus.
João 1:2

O Verbo não é um conceito que existia na mente de Deus. O Verbo é uma pessoa. “Ele” estava com Deus. No princípio. No começo de todas as coisas Ele reinava e dominava. Com Deus. Não existiu um momento desde a eternidade passada em que Jesus não estivesse com Deus – Ele é Deus. Nem um instante em que a Palavra que Ele personifica, a Mensagem que revela Deus ao homem, não existisse no coração e no propósito divino. O Evangelho não é um plano secundário de Deus. É a maior manifestação da Sua Glória.

Quando João reforça a ideia do primeiro versículo, ele afirma além de qualquer dúvida a divindade de Jesus ao mesmo tempo que nos faz sentir a profunda comunhão que existe no seio divino. Jesus, o Pai e o Espírito Santo, o Deus Triuno, em comunhão perfeita desde a eternidade passada. Uma comunhão que criou o Mundo (Gn.1:1-2). Formou o Homem do pó da terra (Gn.1:26-27). Sustenta todas as coisas. Uma comunhão nunca quebrada.

A Encarnação é o começo de um caminho que vai conduzir à separação do indivisível. Jesus sabia disso. Mesmo assim Ele veio. Porque Ele é o Verbo que nós precisávamos ouvir. Na Cruz, o clímax da Sua missão, Jesus clama: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Mc.15:34). João, o mesmo que ouviu estas palavras vindas do madeiro, quer fazer-nos sentir o peso do Amor de Deus por nós lembrando-nos da comunhão que só foi quebrada para que tu pudesses ser incluído nela (Jo.1:12-13; Rm.5:1-11).