No princípio…

Leitura recomendada: João 1:1-2

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
João 1:1

“No princípio…” – que começo assombroso. João vai às raízes do Antigo Testamento e do livro de Génesis empresta a abertura do seu Evangelho.

Em Génesis o foco está no poder absoluto do Deus Soberano Criador. João, por sua vez mostra que Deus é independente da Sua criação, que existe majestoso antes dela,  e que a Sua revelação maior não é pelas coisas criadas (Rm.1:19-20), mas pela Palavra encarnada (Hb.1:1-3).

De maneira diferente dos outros evangelistas, João salta os pormenores históricos do nascimento de Jesus e abre a narrativa do evangelho afirmando sem reservas a Sua plena divindade. Jesus, o Verbo. Jesus não é apenas um Messias humano ungido por Deus. Um homem escolhido entre homens. Ele é, sempre foi, e será Deus.

Ele é desde o princípio. Eterno. Sem início e sem fim. Não foi criado. Imaginado. Inventado. Não precisa de outro. Não depende de ninguém. É totalmente suficiente. Independente. Maior. Santo.

Ele estava com Deus. Isso não significa que não fossem o mesmo. O verbo era, é Deus. A pessoa de Jesus não é uma emanação posterior da identidade divina. Ele é Deus desde o princípio.

Afirmar a divindade de Jesus é uma prioridade para João. É necessário vê-l’O além do Mestre, do Profeta, do Operador de Milagres, do Messias vitorioso que tantos aguardavam. Ele é o próprio Deus a visitar a Sua criação. Olhar para Jesus é olhar para Deus. O Seu carácter. O Seu coração. As Suas palavras são as palavras de Deus. Por isso, Ele é o Verbo. A Mensagem de Deus para o Homem, presente desde a eternidade passada no seio divino, agora revelada à luz, para Salvação dos que crêem.

O mistério da Encarnação

A nossa caminhada do Advento começa hoje. O Advento é uma época para reflectir no significado da Encarnação. Bem diferente, portanto, do frenesim consumista que enche as ruas.

A Encarnação é a resposta graciosa de Deus a uma humanidade pecadora. Deus se fez presente, Deus connosco, o Emanuel. Tomou a forma humana para levar as nossas dores, vencer as nossas tentações e suportar o nosso castigo (Is.53:1-7; Hb.2:9-18). A Encarnação é Deus em missão. Uma missão de busca e salvamento (Lc.19:10). O Emanuel veio salvar-nos de nós mesmos e da ira do Deus Santo.

São grandes os mistérios que envolvem a Encarnação. Jesus, verdadeiro Deus, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl.2:7). Embora não compreendamos a plenitude desta afirmação estrondosa sabemos e cremos na sua realidade porque “vimos a sua glória, como a glória do unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo.1:14). Com a Encarnação, Jesus inicia a missão através da qual o carácter perfeito e Santo de Deus será exaltado tanto na destruição dos Seus inimigos como na salvação dos que crêem. No fim, “Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl.2:9-11).

Os evangelistas descrevem o momento do nascimento do Messias Jesus. Enquanto Mateus e Lucas descrevem o desenrolar histórico dos acontecimentos – confirmando assim o cumprimento perfeito das antigas profecias – João deixa-nos espreitar por detrás do pano, para vermos o desenrolar celestial do propósito eterno de Deus.

Pela graça de Deus, João conduz-nos à essência da Encarnação – “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20:31). Ao longo dos anos, romanceamos os pormenores históricos do nascimento de Cristo, esvaziando-o do seu significado e majestade. Fizemo-lo para o acomodarmos à nossa mente mundana e carnal. O relato de João eleva a verdade profunda e transformadora do Evangelho – que Jesus, a Luz do mundo, veio para brilhar nas nossas trevas e conduzir-nos de volta à comunhão do Pai (Jo.1:4,9,12).

Devocional Advento 2014

Pois é, o Natal está quase a chegar. A euforia já chegou às ruas e às lojas! Para a maioria esta celebração perdeu todo o seu sentido original. Jesus já nem sequer é mencionado. Fala-se da família, dos presentes, do Pai Natal, dos doces, resumindo, de tudo que possa exaltar o meu EU. Esta é a mentalidade pós-moderna que invade a nossa consciência comum – individualista, em busca do prazer, focada no imediato.

A Igreja tem a responsabilidade de agir contra-cultura levantando voz para anunciar a Jesus. Embora as Escrituras não nos ensinem a celebrar o nascimento de Jesus, este é um tempo propício para partilhar ao Evangelho. Assim sendo, demos ouvidos ao desafio que nos é imposto de falar de Cristo “a tempo e fora de tempo” (2Tm.4:2).

Devocional Advento 2014À semelhança dos anos anteriores vou disponibilizar brevemente o “Devocional Advento 2014”. Este ano o tema global é: “”Conhecer Jesus”. Todas as meditações são baseadas em passagens do Evangelho de João e o objectivo é fazer sobressair a pessoa de Jesus Cristo como “a imagem da glória do Pai” (Jo.1:14). No final, será disponibilizado um livro (ebook) com a compilação de todas as meditações. Está atento, ou então, podes fazer o teu registo no formulário abaixo e recebê-lo em primeiríssima mão na tua caixa de email assim que esteja pronto!

Se quiseres dar uma olhadela no devocional do ano anterior podes fazê-lo aqui.

A Cruz de Jesus

“Quando Jesus veio à terra, Ele sabia que vinha para morrer; ouve o Mestre quando explicava as Escrituras àqueles discípulos cabisbaixos na estrada para Emaús. “Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?” perguntou ele (Lucas 24:26). A cruz era uma missão divina, não um acidente humano; era uma obrigação dada por Deus, não uma opção humana. Mais tarde nessa mesma noite, Jesus aparece aos onze apóstolos e diz, “Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos” (Lucas 24:46). Jesus não foi assassinado; Ele voluntariamente deu a Sua vida pelas Suas ovelhas (João 10:15-18). A Sua morte era uma necessidade no plano eterno de Deus.”

Warren W. Wiersbe em “The Cross of Jesus – What His Words From Calvary Mean For Us“, © 1997 Publicado por Baker Books

Em Cristo

A transformação operada por Deus na vida daqueles que crêem é tão profunda que a Bíblia fala dela em termos de uma nova identidade. Há uma vida velha que corresponde a uma identidade velha e corrupta, que dá lugar a uma nova vida em Cristo. Em nenhum lugar das Escrituras esta nova vida é apresentada como existindo além, fora ou à parte de Cristo. É em Jesus Cristo, na Sua vida, que encontramos a realidade da nossa nova identidade. Mais de 100 versículos por todo o Novo Testamento nos falam directamente dessa transformação que é estar em Cristo (ver infográfico).

Em Cristo

Por diversas vezes somos exortados pelas Escrituras a assumir frontalmente e com ousadia essa nova identidade. Quero recordar-vos dois textos em que o próprio Jesus nos desafia.

Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.
Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.
Mateus 10:32-33

Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos.
Lucas 9:26

Estes desafios e avisos solenes de Jesus surgem num contexto particular – Jesus estava a enviar os seus discípulos ao mundo como Suas testemunhas. Muitas dificuldades e desafios à fé surgiriam, e era precisamente nesses momentos que os discípulos iriam mostrar a sua verdadeira identidade. Confessar ou negar a Cristo? Ter vergonha ou ser ousado? As tribulações que viriam separariam os verdadeiros filhos de Deus daqueles que O seguiam com motivações humanas.

O que significa confessar a Cristo?

Confessar a Cristo é mais do que palavras. É a atitude activa de reconhecer a Jesus Cristo na minha vida quer por palavras quer por actos. Saliento três implicações de confessar a Cristo:

  1. Confessar o nosso pecado e incapacidade de nos salvarmos a nós mesmos. É uma declaração de falência e fracasso. Mas, ao fazê-lo entramos no gozo das promessas de Deus (1Jo.1:8-10)
  2. Confessar que a nossa esperança de salvação está em Jesus Cristo e na obra que Ele realizou na cruz. É uma declaração de rendição. Mas, esta é a rendição que nos garante a vitória (Rm.10:9-13)
  3. Confessar que a nova vida que vivemos não é na nossa força mas pelo poder da Sua vida em nós. É uma declaração de propósito, vivemos para a sua glória (Gl.2:20).

O que significa envergonhar-me de Cristo?

A questão da vergonha vai fundo nos nossos corações. Ela discerne as intenções e motivações. O nosso prazer deve ser gloriar-nos no Senhor. Isso significa alegrar-nos, ter orgulho e vaidade por Ele, desejar mostrar a todos quem Ele é. A vergonha é a negação de toda a transformação do nosso coração. Três áreas em que muitas vezes nos envergonhamos do Senhor:

  1. Colocar os meus interesses acima dos dele (Lc.9:23, Mt.10:37-39). Ao fazer isto estou a dizer que a minha vontade é melhor do que a dele. Que me satisfaço mais em seguir o meu coração do que em agradá-lo.
  2. Colocar a minha segurança acima da Sua glória. (Lc.9:24, Mt.10:34-35). Quando escondo o facto de que sou cristão ou quando faço alguma coisa que sei que não devo só para não ser prejudicado, mostro que não estou disposto a sofrer por amor d’Ele. Na prática, estou a dizer que o meu nome é maior (mais importante) do que o Seu Nome.
  3. Considerar a obediência à Sua vontade como um fardo. Muitos obedecem a Deus por obrigação, por medo ou até por interesse. Poucos são os que encontram satisfação em agradar-lhe só porque Ele é digno. Consideramos a vontade de Deus e parece-nos que Deus só diz: “Não!” A vontade de Deus é entendida como uma limitação à nossa, e por isso estamos sempre em confronto com Deus. Mas, não precisa ser assim, pois o seu fardo é leve e o seu jugo suave (Mt.11:28-30)

É tempo de assumir a nossa identidade. Sem vergonha. Sem medo. Com ousadia. Confessando alegremente a Cristo.

Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. (Rm.6:11)