Uma oração radical. Uma resposta inesperada.

Há orações e orações. A Bíblia regista muitas mas, há algumas que permanecem até hoje como exemplos marcantes de homens e mulheres que souberam buscar a Deus. Uma dessas orações foi feita por um homem já avançado em idade, altamente capacitado mas quebrado no seu orgulho, conhecedor do fracasso mas também da misericórdia divina, e carregando o peso da responsabilidade de liderar um povo de centenas de milhares de ex-escravos. Falo, é claro, de Moisés.

A sua oração fica registada como uma das mais significativas da sua vida, aliás, de toda a Bíblia:

Então ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória.
Êxodo 33:18

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Para podermos entender melhor a grandeza da oração de Moisés precisamos considerar o contexto em que ela surge. Para isso, devemos recuar cerca de oitenta anos. Moisés nasceu escravo no poderoso império egípcio numa altura em que isso significava uma sentença de morte imediata à nascença. Contra todas as circunstâncias Deus preservou-o e ele acabou adoptado pela filha de Faraó e educado como um príncipe do Egipto. Quando tinha 40 anos, não suportando mais a realidade de ver o seu próprio povo escravizado, matou um guarda egípcio que agredia brutalmente um escravo hebreu. Desse modo, deitou por terra o aparente futuro brilhante e tornou-se fugitivo no deserto.

Durante os 40 anos seguintes, Moisés casou, teve filhos, e tornou-se pastor dos rebanhos do seu sogro. Não era assim que imaginaríamos o seu futuro. Ele foi esquecido pelo seu próprio povo e pelos agora seus inimigos egípcios. Mas, não por Deus. Em todas as circunstâncias Deus trabalhava, até ao dia em que, numa sarça ardente Deus revela o Seu propósito para Moisés – ele seria o homem que tiraria os escravos hebreus do Egipto. Por intermédio deste homem quebrado pelos anos e pelos erros do passado, Deus trouxe a nação mais poderosa da terra à beira do abismo. Depois de dez pragas terríveis que se abateram sobre o Egipto destruindo a nação quer economicamente, socialmente e religiosamente, os escravos hebreus saem em liberdade. Um último teste esperava-os diante do Mar Vermelho onde Deus desferiu o golpe final a Faraó fazendo-o perder o seu exército nas águas revoltas. Quando o povo estava fraco Deus mostrou a Sua glória revelando-se Forte e Soberano.

Atravessado o Mar o povo entrou no deserto. Ao cabo de dias a comida e a água escassearam. O povo murmurou. Contra Moisés e contra Deus. “Trouxeste-nos do Egipto para morrermos no deserto?” Diante da angustiante necessidade do povo, Deus faz brotar água da penha, torna águas amargas em doces, encontra oásis no deserto e faz descer o maná no deserto todas as manhãs. Em Êxodo 16, Moisés diz que o maná e as codornizes eram uma manifestação da glória de Deus (vs. 7 e 8). O maná era a glória de Deus comestível. Na necessidade Deus revelou a Sua Glória sendo o Grande Provedor.

Ao fim de três meses de peregrinação pelo deserto o povo dava sinais de desgoverno (Ex.18). Os esforços de Moisés em ser um líder justo haviam-no esgotado. Foram escolhidos homens íntegros para ocupar lugares de liderança intermédia. Mas, o povo ainda precisava de direcção. Eles tinham provado a glória de Deus, mas Ele continuava a ser desconhecido para eles. Deus era o Senhor de Abraão, de Isaque e de Jacó. Era o Senhor de Moisés. Mas, o povo ainda não conhecia a Sua vontade.

Deus conduz o povo até ao Monte Sinai. Ordena a purificação. E, chama Moisés à montanha ardente. Ali, Deus fala com Moisés. A Lei e os Mandamentos são dados ao povo como regra de conduta para cumprir a vontade de Deus. Deus mostra-se Santo, apegado à Justiça e ordena que o seu povo seja santo, como Ele é Santo. Quando o povo estava desnorteado, Deus manifestou a Sua glória mostrando-se Santo e dando-lhes a Lei.

Depois de tantas manifestações da Sua glória por que é que Moisés ainda insiste com Deus: “Mostra-me a Tua glória”? Será que ele ainda tinha dúvidas? Não creio. Moisés clama a Deus porque eles se encontravam numa posição que não tinham conhecido antes. O povo tinha cometido um grave pecado. Mais grave do que duvidar de Moisés e de Deus. Mais grave do que murmurar e querer voltar para trás. O povo tinha ofendido a Santidade gloriosa de Deus.

Com a demora de Moisés no Sinai – ele esteve no monte 40 dias – o povo impacientou-se e pediu a Arão que lhes fizesse um deus (Ex.32:1). (Será que eles se aperceberam de como isso soa ridículo? Se temos o poder de fazer deuses isso não quer dizer que somos deuses ainda maiores? Porque, então, nos curvamos perante aqueles que são menores do que nós?) Arão fez como eles pediram e fundiu uma imagem de ouro, um bezerro, e o povo o adorou dizendo: “Este é teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito.” (Êx.32:4). Perante tal afronta, o Senhor resolve destruir todo o povo e poupar apenas a Moisés.

Moisés intercede em favor do povo mostrando grande reverência pela glória e o Nome do Senhor. Deus ouve-o e decide poupar o povo. Muitos israelitas morreram como castigo, mas, a nação foi poupada. Deus renova as promessas de os levar à Terra Prometida, de afastar de diante deles os inimigos e de abençoá-los com prosperidade. Tudo parecia sanado. Que mais poderia querer este povo rebelde? Mas, o povo chorou. Porquê? Porque Deus prometeu abençoá-los com tudo o que eles desejavam, mas, a Sua presença não iria com eles. O que Deus estava a dizer era que iria cumprir todas as promessas porque era fiel a Si mesmo, mas, que o povo estaria afastado da Sua comunhão. Quantos de nós choraríamos ao ouvir isto? Nós, que andamos tão ansiosos em busca das bençãos e tão prontamente esquecemos o Senhor que as dá.

O Senhor não poderia ir no meio deles senão todos seriam destruídos. O pecado deles não seria tolerado pela Santidade absoluta de Deus. Deus, o fogo consumidor, destruí-los-ia a todos. Moisés insiste pela presença do Senhor. O Senhor, por amor a Moisés, diz que irá com o povo. Moisés vai além e roga: “Mostra-me a tua glória!”. Ele queria uma prova concreta da presença de Deus. Mais do que o Poder. Mais do que a Provisão. Mais do que a Lei. E, o Senhor mostra-lhe toda a Sua bondade. Perante o pecado a mais majestosa manifestação da glória divina é a Misericórdia.

Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.
Êxodo 33:19

Passando, pois, o Senhor perante ele, clamou: O Senhor, o Senhor Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade;
Que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até a terceira e quarta geração.
E Moisés apressou-se, e inclinou a cabeça à terra, adorou,
E disse: Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, vá agora o Senhor no meio de nós; porque este é povo de dura cerviz; porém perdoa a nossa iniquidade e o nosso pecado, e toma-nos por tua herança.
Êxodo 34:6-9

Fora do acampamento havia uma tenda chamada Tenda da Congregação. Aí, Moisés encontrava-se com Deus, e Deus lhe falava face a face como um ao seu amigo. A Tenda estava fora do acampamento. Deus não podia habitar no meio de um povo cheio de pecado. Mas, Deus ordenara a santificação, e no Sinai, deu instruções a Moisés a construção de uma nova tenda, o tabernáculo. Esta, ao contrário da outra, deveria estar no centro do acampamento. Deus manifestaria ali toda a Sua glória. Como era isto possível?

No tabernáculo havia uma sala, além dum espesso véu, onde ninguém poderia entrar. Era o Lugar Santo dos Santos. Lá dentro havia apenas um objecto – a Arca da Aliança. A Arca era uma caixa de madeira revestida a ouro. Lá dentro eram guardadas: a vara de Arão que floresceu, uma taça com o maná e as tábuas da Lei. Três símbolos. Três recordações das manifestações anteriores da glória de Deus. A tapar a arca uma tampa em ouro maciço. Sobre ela a figura de dois querubins – anjos magníficos geralmente conotados com a defesa da santidade de Deus. Era sobre esta tampa que Deus manifestava a Sua glória. Ela é chamada de Trono da Misericórdia, ou Propiciatório, em referência ao que ali se fazia. Uma vez por ano, o sumo-sacerdote entraria naquele lugar carregando nas mãos o sangue de um animal sobre o qual os pecados do povo haviam sido colocados. O sangue seria aspergido sobre o Trono da Misericórdia e Deus perdoaria o pecado do povo.

 

Deus mostrava misericórdia mas, “ao culpado não tinha por inocente”. O pecado era castigado sobre o animal sacrificado para que o povo experimentasse o perdão. Só assim Deus poderia habitar no meio do Seu povo.

Anos mais tarde, o apóstolo João diz-nos:

Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.
E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. (1 João 2:1-2)

Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. (1 João 4:10)

O apóstolo Paulo confirma quando diz:

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;
Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.
Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus;
Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:23-26)

Hoje, vemos a mesma glória de Deus na face de Jesus Cristo. Ele que carregou a culpa dos nossos pecados, e derramou o Seu sangue como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

A questão que sobra é: Será que eu desejo conhecer esta glória de Deus tanto como Moisés? As bençãos de Deus são melhores para mim do que Ele mesmo? Choro quando o pecado me afasta da Sua comunhão?

Se tu O buscares como Moisés provarás, como ele, a majestosa, santa e gloriosa Misericórdia e Graça de Deus.

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De glória em glória

Depois do que temos considerado na série “Resolução 268” proponho mais uma pausa para meditar. Há uma música que conheço desde miúdo que me arrepia sempre que a canto. Chama-se “De glória em glória”. Marcos Witt, o autor, captou em poucas palavras a essência de alguém que está rendido à glória de Deus.

De glória em glória Te vejo.

Quanto mais Te conheço,

Quero saber mais de Ti.

Deus meu, tal como o oleiro,

Quebranta-me, transforma-me,

Sim, molda-me à Tua imagem, Senhor.

Quero ser mais como Tu,

Ver a vida como Tu,

Transbordar do teu Espírito,

E reflectir ao mundo o Teu amor.

 

A glória de Deus – parte III: Graça, Misericórdia e Juízo

Tenho três crianças pequenas em casa. A maior parte do tempo eles esforçam-se por afirmar a sua individualidade. A R., a mais pequena dos três, agora com 3 anos, anda há um ano a dizer: “Eu sou gande. Eu não sou pequenina, eu sou gande“. A sua necessidade de afirmação perante os irmãos mais velhos é tão forte que ela não tolera ser tratada como a bebé que é. Nesse esforço de afirmação pessoal as crianças estão muitas vezes na “fronteira da legalidade”. Algumas vezes descaradamente, outras com hábil subtileza, tentam ultrapassar os limites que lhes são impostos pelos pais. É neste fio de navalha que muitas vezes balança o processo educativo e formativo.

Os pais, como educadores que são, e amando os filhos com um amor incondicional, estabelecem limites e valores que sabem ser no melhor interesse das crianças. Estas, por seu lado, olham para esses limites como uma restrição intolerável à sua liberdade. Criança: “Mas, porque é que não me deixas estar? Nunca posso fazer nada“! Pai: “Porque correr em cima de um muro alto não me parece ser muito boa ideia!” A disciplina imposta pelos pais tem vários propósitos:

  1. Proteger o filho dos perigos. As crianças não são capazes de avaliar bem os perigos e consequências das suas acções. Por essa razão os pais proíbem determinados comportamentos para a sua segurança. Isto não é estragar a diversão. É uma prova de Amor.
  2. Garantir as melhores condições de desenvolvimento. Comer os vegetais, deitar cedo, tomar banho, ir à escola e fazer os TPC pode não parecer a melhor coisa do mundo, mas, um crescimento saudável só é possível quando fazemos estas coisas detestáveis. Esta também é uma prova de Amor.
  3. Preparar para o futuro. Ensinar a ser responsável, verdadeiro, bom amigo, confiável, humilde, paciente, perdoador, altruísta, compassivo, fiel exige um grande esforço educativo dos pais – por palavras e, mais importante, por exemplo. Mas, essa disciplina criará adultos equilibrados emocional e psicologicamente, capazes de amar o próximo, sábios em lidar com as frustrações e prontos a passar à geração seguinte os valores éticos e morais que receberam dos seus pais.

Deus também revela o Seu carácter e as suas intenções para nós quando nos disciplina. Quando falo de disciplina não quero significar a dimensão correctiva e/ou punitiva da acção. Disciplinar é muito mais do que isso. É ensinar e instruir. É conformar às regras – àquilo que é correcto, justo e verdadeiro. É trazer ordem ao caos.

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Tal como as crianças nós nem sempre apreciamos este trabalho de Deus. Tal como os pais o Senhor planeia amorosamente o melhor para nós. As acções reflectem o carácter e o que está no coração. Por vezes, os pais perdem a paciência com a rebeldia dos filhos. Gritam. Explodem. Amesquinham. Batem violentamente. Tudo isso vem da frustração acumulada e de um carácter falho. E, Deus? Como é que Ele reage à nossa desobediência obstinada e a rebeldia arrogante dos nossos corações?

Se as acções reflectem o carácter, então, a reacção de Deus é cheia da Sua glória. Para entendermos melhor vamos considerar o texto de Isaías 1.  Não esqueças que caminhamos para a Resolução 268, a decisão que afectará mais profundamente o teu relacionamento com Deus e o teu posicionamento no Mundo. Por isso, vamos começar a familiarizar-nos com o contexto.

Deus levantou Isaías como profeta em tempos conturbados. A nação de Israel tinha-se dividido em duas após a morte de Salomão. O Reino do Norte, conhecido por Israel, composto por dez tribos. E, o Reino do Sul, conhecido por Judá, composto pelas restantes duas. Seguindo a obstinação dos seus reis ambos os reinos se desviaram do Senhor, embora o Reino de Judá experimentasse reavivamentos sucessivos por influência de alguns bons reis.

Quando Isaías começa o seu trabalho de profeta o Reino de Judá estava numa situação difícil. A inimizade entre os dois reinos irmãos colocava-os em guerra permanente, e agora, o rei Peca, do reino de Israel fez uma aliança com o rei da Síria, Rezim, para juntos destruírem a Judá. (Is.7:1) A razão deste perigo militar era maior do que a rivalidade entre eles ou a ânsia de poder da Síria. Na base de tudo estava o plano soberano de Deus para disciplinar o Seu povo.

Desde há muito tempo Deus falava ao povo. Considera o que Deus lhes dizia:

  1. Deus expôs o pecado deles (Is.1:1-15). Deus acusa-os de rebelião, falta de entendimento, iniquidade, malfeitorias, corrupção, blasfémia, apostasia e hipocrisia.
  2. Deus convida-os ao arrependimento (Is.1:16-20). Se eles se arrependerem e demonstrarem isso pelos seus actos, Deus será misericordioso e restaurará todas as promessas. A comunhão entre eles será preciosa, como se nunca houvessem pecado.
  3. Deus adverte-os sobre o julgamento (Is.1:20-2:11). Apesar de toda a misericórdia e graça disponível para eles em Deus, se não se arrependessem a única expectativa que restava era a de enfrentar o Juízo e a Ira de Deus. E que grande seria essa ira.

Em toda a reacção de Deus ao pecado do Seu povo nós vemos o resplendor da Sua glória. Ele mostra ser Santo ao não tolerar o pecado deles. Mostra ser Todo-Poderoso, Omnisciente e Omnipresente ao revelar todos os seus pecados, ainda que eles bem se esforçassem por escondê-los. Deus revela toda a Sua Paciência e Longanimidade ao reter a Sua ira e convidá-los ao arrependimento. A Sua Misericórdia, Graça e Amor são o esplendor do Perdão que lhes estende. A Sua Justiça satisfeita na Ira que destrói os inimigos, vindicando assim a sua Santidade que não pode ser beliscada. Que magnífica perfeição divina! Deus mantém-se sempre fiel a si mesmo.

Como é que conhecer a Deus desta maneira influencia o meu relacionamento com Ele e minha visão do Mundo? Duas propostas:

  1. Saber que tudo o que Deus faz na minha vida tem um propósito disciplinar para me conduzir à “estatura perfeita de Cristo” ajuda-me a aceitar a Sua vontade como “boa, perfeita e agradável”.
  2. Saber que Deus é fiel a Si mesmo em tudo o que faz leva-me a aceitar a correcção de Deus com humildade e responsabilidade.

E, tu? Que lições tiras da reflexão de hoje? Partilha nos comentários ou através do Facebook.

A Glória de Deus – parte II: A resposta do Homem

Cristiano Ronaldo ou Leonel Messi? Sporting ou Benfica? Futebol europeu ou americano? Basebol ou basquete? WRC ou Fórmula 1? Al Pacino ou Sylvester Stallone? Haverá sempre adeptos de uns e de outros. Cada qual defensor acérrimo da glória do seu preferido e pronto a amesquinhar os feitos dos adversários.

A percepção da glória não é unânime. Isso pode parecer estranho uma vez que a glória está ligada a algo belo, majestoso, incrível, talentoso ou surpreendente. Creio que há pelos menos três factores que determinam a nossa diferente percepção da glória.

1. A sensibilidade pessoal.

Para alguém apreciador da natureza um colorido por-do-sol é uma visão gloriosa e incomparável. Nada satisfaz mais a sua alma. Mas, outro amigo mais dado à ciência e engenharia, encontra o mesmo êxtase estético ao contemplar um magnífico edifício que leva ao expoente máximo o engenho humano. Qual dos dois tem razão? Os dois. Há coisas que são naturalmente mais atrativas para nós do que outras. Mas, embora com maior inclinação para um ou outro cenário, perante uma visão gloriosa, todos reconhecem estar perante algo majestoso.

2. A falibilidade do objecto de glória.

Tão depressa somos elevados ao êxtase perante uma visão da glória – lembras-te do ciclista americano Lance Armstrong que venceu por 7 vezes consecutivas a Volta à França – como sucumbimos ao descobrir nela alguma falha – Armstrong perdeu os 7 títulos e foi banido do ciclismo mundial por ter usado dopagem para aumentar a sua performance.

3. A perversão do nosso coração.

Voltando à rivalidade entre Ronaldo e Messi. Quando os defensores de um e de outro debatem as virtudes do seu favorito normalmente falam do opositor de uma maneira como se não soubesse jogar à bola. “O quê? O Ronaldo? Ele só sabe correr e chutar em frente. O Messi é que é, parece que tem a bola colada aos pés.” O modo como reagimos revela o que está no nosso coração. Muitos rejeitam o Cristiano Ronaldo porque ele ostenta a sua riqueza. Tem boas casas, muitos carros, roupas luxuosas. Por isso não gostam dele. São capazes de ignorar todo o seu talento, os feitos desportivos, o trabalho esforçado que lhe é reconhecido por todos, apenas por algo que consideram uma falha no seu imaginário do que deve ser o melhor atleta. A real motivação para esta atitude é muitas vezes uma inveja encapotada, um orgulho ferido e um ressentimento contra aqueles que atingiram aquilo que não somos capazes.

Estes três factores não trabalham isoladamente, mas estão encadeados uns nos outros, explicando-se uns aos outros. Porque é que eu prefiro uma coisa em relação a outra? Porque vejo mais virtudes ou menos falhas nela. Porque é que eu exalto as falhas e ignoro os feitos incríveis? Por causa da inveja do meu coração.

Esta análise faz-nos entender um ponto importante sobre a percepção da glória. A percepção que temos de algo glorioso não depende tanto do objecto de glória mas do sujeito exposto a ela. Quer dizer, o por-do-sol é sempre glorioso em si mesmo, mas, a minha percepção dele torna-se subjectiva por causa do meu coração.

A resposta do Homem à glória de Deus

Vamos aplicar os conceitos anteriores à nossa relação com Deus. Todos reconhecemos que há uma grande diversidade de reacções do Homem perante Deus. Há os ateus, que na verdade são odiadores de Deus mais do que homens que não acreditam na Sua existência. Os agnósticos, que na realidade são homens que escolhem ignorar todas as evidências da divindade. E, depois, há os crentes. Aqui também encontramos um largo espectro de reacções. Há aqueles que dizendo-se crentes simplesmente ignoram completamente aquilo que Deus diz. Há os outros que torcem aquilo que Deus diz conforme a sua própria conveniência. E, há aqueles que reconhecendo a Glória de Deus entregam as suas vidas à exaltação do Seu Nome, pela obediência humilde à Sua vontade, satisfazendo as suas almas na comunhão com o Eterno.

Mas, porque é que reagimos de modo tão diferente perante Deus? Já consideramos que há alguns factores que interferem com a nossa percepção da glória. Mas, Deus é diferente – porque Ele é Santo. Dizer que Deus é Santo é dizer que nele não há subjectividade nenhuma. Ele é absoluto. Absolutamente perfeito. Absolutamente glorioso. Absolutamente desejável. Não podemos olhar para Deus – para as Suas obras ou palavras – e pensar: “Sim, isto é bom, mas se fosse diferente podia ser melhor.”  Por outro lado, dizer que Deus é Santo significa que nele não há falhas. Ele é perfeito, sempre fiel a Si mesmo, infalível, sem pecado, sem enganos. Mesmo quando manifesta atributos aparentemente contrários – Amor e Ira, por exemplo – não há nele nenhum fracasso. A Sua glória é incomparável. Ele é Santo.

A própria natureza de Deus elimina os dois primeiros factores que consideramos anteriormente. Não há absolutamente nada em Deus que possa tornar a nossa percepção dele subjectiva ou passível de críticas. Ou seja, perante Deus a nossa resposta natural deveria ser de total assombro pela Sua majestade e satisfação em conhecê-lo, adorá-lo e servi-lo. Mas, não é. Isso leva-nos a considerar o terceiro factor – o nosso coração.

coração duro

O coração humano – rebelde até ao âmago

Quando a Bíblia fala do coração refere-se ao nosso íntimo, à mente, à vontade, às paixões ou inclinações, os desejos e sentimentos, ao centro ou âmago de quem somos. Sobre o nosso coração diz:

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? Jeremias 17:9

Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios,
a cobiça, as maldades, o dolo, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a insensatez;
todas estas más coisas procedem de dentro e contaminam o homem. Marcos 7:21-24

Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamenteGênesis 6:5

Como é que um coração como este reage à manifestação da glória perfeita e absoluta de um Deus Santo? O texto de Romanos 1 ajuda-nos a entender. Vimos anteriormente (aqui) que a glória de Deus pode ser percebida em três níveis de revelação crescente:

  1. A Criação.
  2. A Palavra.
  3. A Santidade.

Nós reagimos a cada uma dessas revelações divinas. Diante da Criação não glorificamos a Deus, não Lhe damos graças, e mudamos a Sua glória incorruptível na semelhança do que é corruptível (vs.19-23). Mascaramos a nossa rebelião com o rótulo da ciência, mas aquilo que realmente não queremos fazer é reconhecer o Poder absoluto e a Soberania majestosa de um Criador que tem domínio sobre nós.

Conhecer a Palavra de Deus, que expressa a Sua vontade perfeita, boa e agradável (Rm.12:2), não desperta em nós melhor reacção. Trocamos a Verdade por mentira (vs.25). Perdemo-nos nos nossos próprios pensamentos (vs. 21 e 22) e chamamos-lhe Filosofia, Psicologia, Humanismo, Sociologia, Política. Tudo com o propósito final de roubarmos a glória que pertence a Deus para a colocarmos sobre nós (vs.25).

Como se essas tentativas de obliterar Deus dos nossos pensamentos não fossem suficientes, desenvolvemos um coração duro, insensível a Deus, uma consciência que abafa todo o Seu chamado, não nos importando com Ele, as Suas obras, Palavra ou Glória. Na nossa dormência ficámos indiferentes a Deus (vs.26). E, chamamos a isso Tolerância. Sob a capa do respeito mútuo silenciamos a Voz divina que nos chama à verdade (vs.32).

Resolução268 - resposta do Homem

O texto de Romanos continua descrevendo o nosso coração. Clamamos desesperadamente: “Não há Deus!” (Sl.14:1). Porque é que somos assim? De onde vem tanta revolta e raiva contra Deus? “Porque todos pecaram” (Rm.3:23) O pecado rouba-nos do gozo e satisfação na glória de Deus. O versículo continua e diz: “… e estão destituídos da glória de Deus” (Rm3:23) Por causa do pecado, a glória de Deus torna-se incómoda para mim. Eu não sou capaz de desfrutá-la ou de ser maravilhado por ela. Estou separado da doçura dessa Presença Santa, e só me resta uma certa expectativa de terror que me leva a afrontar Deus.

Mas, o texto expressa outra ideia. É que, porque sou pecador, aquilo que eu mais preciso é de ser inundado pela glória de Deus. A minha maior necessidade, aquilo que me curará do meu pecado é exactamente aquilo de que o meu pecado me afasta – Deus. Algumas versões traduzem o texto como “Todos pecaram e carecem da glória de Deus”. Como resolver este dilema? Veremos isso no próximo artigo.

Como é que conhecer o meu coração muda a minha cosmovisão?

Deixo duas conclusões e desafio-vos a partilharem os vossos pensamentos nos comentários ou no Facebook.

  1. Tenho de vigiar constantemente sobre o meu coração porque na primeira oportunidade ele levar-me-à para longe de Deus. Embora eu tenha recebido um novo coração da parte de Deus que tem prazer na Sua glória, os resquícios da velha natureza irão assumir o controlo sempre que eu lhes der uma oportunidade. Por isso, devo testar todos os meus pensamentos, vontades, planos e atitudes pela Palavra de Deus, para que não me desvie dele seguindo após o meu próprio coração.
  2. Agora entendo porque tantas pessoas fazem escolhas erradas e contrárias à vontade de Deus. É a sua natureza. Eles são incapazes de fazer o Bem. O melhor que tenho a fazer não é pregar um Moralismo superficial que não transforma o coração, mas anunciar o Evangelho da glória de Deus que tem o poder de mudar corações e transformar vidas.

Salmo 96

1 Cantem ao SENHOR um novo cântico; cantem ao SENHOR todos os habitantes da terra;

2 cantem ao SENHOR, bendigam o seu nome; proclamem dia após dia a sua salvação.

3 Anunciem entre os povos a sua glória e em todas as nações as suas maravilhas,

4 porque o SENHOR é grande e digno de louvor, mais temível que todos os deuses!

5 Esses deuses não valem nada; foi o SENHOR que criou os céus.

6 Na sua presença há esplendor e majestade; no seu santuário há poder e beleza.

7 Que todos os povos da terra louvem o SENHOR e proclamem o seu poder e glória!

8 Dêem ao SENHOR a honra que lhe é devida; entrem nos seus átrios, para lhe fazerem ofertas!

9 Inclinem-se diante do Deus santo, que se manifesta cheio de glória; que toda a terra trema diante dele!

10 Proclamem ao mundo inteiro: «O SENHOR é rei!» Por isso, a terra está firme e segura; Deus governa os povos com equidade.

11 Alegrem-se os céus, regozije-se a terra; exulte de alegria o mar e tudo o que ele contém!

12 Alegrem-se os campos e tudo o que neles existe! Cantem de alegria todas as árvores do bosque,

13 na presença do SENHOR, que se aproxima e vem para governar a terra! Ele governará o mundo com justiça, governará os povos com a sua fidelidade.

(A Bíblia para Todos, Tradução interconfessional, copyright © 2009, Sociedade Bíblica de Portugal)


Depois do artigo de ontem, hoje, uma pausa para meditar. Selah.