Pai, perdoa-lhes…

Esta era a hora. Dos homens. E do poder das trevas. A elite religiosa da Judeia rejeitou, prendeu, acusou, julgou e determinou matar Jesus. A turba histérica antes em êxtase com os milagres agora vocifera: crucifica-O. O poder político de Roma despreza o insignificante judeu acusado de ameaçar o domínio do Império.

De alguma forma todos nós estávamos representados naquele dia. No apego ao poder, à “liberdade” de poder escolher o nosso rei. No egoísmo cego de querer as bênçãos sem a obediência. Na rejeição da Luz porque preferimos amar o pecado nas sombras. Cada um de nós crucificou a Jesus.

Nas seis horas que esteve no Calvário Jesus falou por sete vezes. As primeiras palavras subiram para o Pai em favor dos Seus algozes. “Pai, perdoa-lhes…” A comunhão de Jesus com o Pai não podia ser mais íntima ou profunda. Ele estava no princípio com Deus. Ele e o Pai são Um. O prazer de Jesus é fazer a vontade do Pai. O prazer do Pai é o Seu Filho Amado. Antes da fundação do mundo Jesus, o Cordeiro de Deus estava preparado para esta hora. Isso, no entanto, não diminuia o sofrimento nem o terror dos acontecimentos. No Getsmani, Jesus orou com suor de sangue e lágrimas: “Pai, se possível, passa de mim este cálice.” Não lhe passava pela cabeça fugir da sua missão. Ele buscava o conforto do Pai, e teve-o. Agora, de alguma maneira era Jesus quem confortava o Pai. Imagina, por momentos, o que Deus, o Pai, sentia ao ver o Seu Filho amado maltratado daquela forma. Nós, que somos maus, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos. Erguemo-nos como leões na defesa daqueles que amamos. Quanto mais Deus, o Pai celestial! Apesar, de lhe ter “agradado moê-lo” não houve nisso nenhum sentimento perverso ou sádico. O sofrimento de Jesus não lhe era indiferente. Foi tolerado porque Deus sabia o fruto que viria daí. E que glorioso fruto! Tal como Jesus buscou conforto para suportar o horror da cruz, o Pai encontrou conforto na obediência fiel do Filho que lhe suplica: “Pai, retém a tua ira. Não os destruas. Não os firas. Eu cumprirei a missão até ao fim. Eu estou pronto. Perdoa-lhes!”

Jesus sabia do custo do perdão. Mesmo assim, ele pede. O perdão divino não é um olhar para o lado. Não é possível a Deus ignorar as nossas ofensas. “A alma que pecar essa morrerá”. O pecado é uma ofensa tão grave à santidade, à justiça e ao Amor de Deus que as suas consequências são na mesma proporção: morte. Cada um dos teus pecados é uma sentença de morte. Não somos maus porque cometemos muitos pecados. Há uma perversidade na mentira que contamos a nós mesmos quando nos compararmos uns com os outros – a de que somos bons. Um pecado, um único pecado, pequeno que seja aos nossos olhos, recebe o mesmo castigo que mil pecados, ou dez mil, ou os mais de 65 mil que já terei cometido ao ritmo de cinco a cada dia dos meus 36 anos. Uma mentira igual a um roubo. Um mau pensamento igual a um estrupo ou adultério. Um rancor igual a um homicídio. Onde está a justiça nisso, clamamos? O nosso escândalo é natural. Ainda nos julgamos bons. Para compreender a severidade do castigo é preciso considerar a dignidade do ofendido – o Criador, o Sustentador e Soberano sobre todas as coisas, a fonte de todo o Bem, o Santo, a Verdade, a Justiça, o Amor perfeito, Deus. O teu pecado é digno de morte. A dívida de justiça terá que ser paga. Vida por vida, foi assim que Deus ensinou desde a Queda. Para que um seja perdoado outro deve morrer em seu lugar. Primeiro, foram os sacrifícios dos animais. Agora, um novo sacrifício é preparado. “Perdoa-lhes…” pede Jesus. “Eu pago a dívida.” Paulo ao escrever aos Colossenses diz: “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz.” (Cl.2:14) Cada um dos teus pecados levou Jesus à cruz. Ali, ao invés de clamar ao Pai para que envie as Suas legiões e O livre dos seus inimigos, Jesus entrega-se como o sacrifício que trará perdão àqueles que O poem à morte. Aos judeus. Aos romanos. A mim. E a ti.

Eles não sabem o que fazem.” João narra a Encarnação dizendo que a verdadeira Luz, Jesus, veio ao mundo, mas o mundo não O conheceu nem compreendeu. Vai mais longe e diz que Jesus veio para o que era seu, mas os seus não O receberam. Como explicar a rejeição de Jesus? Os judeus aguardavam com tanta ansiedade e expectativa a chegada do Messias, como é possível que, quando Ele veio, e apesar de todos os sinais e maravilhas, e do cumprimento de tantas profecias na Sua vinda, não O tenham reconhecido e celebrado a Sua chegada? O próprio Jesus oferece explicação: “São cegos, guias de cegos.” (Mt.15:14) A sua cegueira é fruto do pecado e da acção directa do deus deste século, o diabo, que “cegou os entendimentos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2Cor.4:4) “Eles não sabem o que fazem.” Estará Jesus a insistir no perdão dos seus inimigos porque eles, coitados, não são responsáveis pelo que fazem? Longe disso. Podemos não entender a total severidade da nossa culpa ou a profundidade da nossa responsabilidade perante Deus, mas sabemos distinguir entre o Bem e o mal, a Justiça e a injustiça, a Verdade e a mentira, a Bondade e o egoísmo e maldade, a Pureza e a perversidade. Cada um de nós sabe da sua culpa perante Deus. A nossa cegueira maior não está em que não possamos ver a Luz, mas em que vendo amamos mais as trevas. Jesus disse que não nos chegamos à Luz para que as nossas obras más não sejam manifestas. Amamo-nos mais a nós do que a Deus. Esse é o problema fundamental do pecado. Desde a Queda que a grande sedução do pecado e da rebeldia contra Deus é que queremos ser nós mesmos deuses. Nessa senda tenebrosa, escolhemos não glorificar a Deus, não Lhe dar graças, mudamos a Sua glória, diminuindo-O, trocamos a Sua verdade por mentiras (Rm.1). Escolhemo-nos a nós e não a Ele. E somos inteiramente responsáveis por essa escolha. “Eles não sabem o que fazem.” Estamos de tal modo embriagados pelo pecado que não compreendemos o alcance da nossa rejeição do Cristo. Não conseguimos olhar para Ele como totalmente desejável. A mentalidade do Jardim do Éden ainda domina o nosso coração. Tantos milénios depois ainda julgamos ser possível alcançar a promessa da serpente e “ser como Deus”.

Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem.” Jesus entrega-se como substituto daqueles que O odiavam. Ele sabe que ao ser levantado naquele madeiro atrairia muitos a Si. A Cruz é o brilho máximo da Sua Luz. Nela, Jesus triunfou publicamente sobre os Seus inimigos. Tal como o irmão Max Lucado escreveu:

“Nunca aqueles braços se abriram num abraço tão grande como quando estavam naquela cruz romana. Um braço estendendo-se para trás na história e o outro alcançando o futuro. Um abraço de perdão oferecido a todos os que vierem. A galinha ajuntando os seus pintos. O pai recebendo os seus filhos. Um redentor redimindo o mundo. Não admira que o chamem Salvador.”

O Homem que morreu por todos os homens

As horas iam longas. Longas e duras. Cheias de escárnio, de violência, e desprezo. As feridas da ira dos Homens, e os horrores da ira de Deus esmagaram o Seu corpo. Ao contemplar a cena da Cruz somos tentados a mistificar a morte do Cristo, o Deus-Homem com capacidades sobre-humanas que realizou uma obra que nenhum mortal poderia efectuar. O estertor da Morte logo nos traz de volta à realidade física, crua e sangrenta. Jesus, o Filho do Homem, inteiramente Homem, suportando no seu corpo a ira. Toda a violência a que fora sujeito, o sangue que perdera, a agonia da cruz, o peso da mão do Pai, esgotaram a Sua humanidade. A Morte vinha depressa.

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“Tenho sede”. (João 19:28) As palavras murmuradas do alto da Cruz garantem-nos que “convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados.” (Hebreus 2:17-18)

“Dá-me de beber”. (João 4:7) Num outro momento de humanidade, Jesus, cansado da viagem pára junto a um poço, numa hora de calor e busca refrescar-Se. Interpela uma mulher. Pede-lhe de beber. Mas, quem acaba dessedentado é a mulher. A água Viva que ela recebeu nesse dia nunca mais cessou. Mesmo na fraqueza da sua humanidade, Jesus não se distrai da Sua missão. Mais tarde, nesse dia, explicaria aos discípulos aquilo que O sustentava. “A minha comida é fazer a vontade d’Aquele que me enviou.” (João 4:32) A Sua humanidade, ainda que tão frágil como a nossa, foi sempre mantida sujeita ao plano, propósito e vontade do Pai. A experiência de Jesus é também a de muitos servos de Deus. Lembremo-nos de Moisés que foi sustentado pelo Senhor durante 40 dias na montanha, enquanto recebia a Lei das mãos do Todo-Poderoso. Mas, Cristo é o exemplo máximo dessa submissão.

Na Cruz, Jesus não perdeu de vista o Seu propósito. Primeiro, “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. “Hoje, estarás comigo no Paraíso”. “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?”. “Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe”. Primeiro, a vontade do Pai. Primeiro, o Cordeiro que sofre em silêncio, sem queixumes, sem retaliação. Primeiro, carregando as feridas e pisaduras por Amor dos que viera salvar. (Isaías 53) No fim, quando a Obra estava feita, Ele solta o lamento da Sua humanidade: “Tenho sede.” O Seu corpo frágil, sucumbia às ânsias da Morte.

Por duas vezes nesse dia deram de beber a Jesus. Primeiro, ao chegarem ao Gólgota, o Lugar da Caveira, deram-Lhe vinho com fel. (Mateus 27:34) Os soldados queriam entorpece-Lo para que não sentisse a dor excruciante dos cravos a trespassarem a Sua carne. Queriam lançá-Lo num limbo dos sentidos para suavizar a violência da tortura a que seria sujeito entre o Céu e a Terra. Essa é a reacção do Homem perante o horror da Cruz. Procuramos suaviza-la. Torna-la aceitável. Suportável. Esse nosso esforço é compreensível. Ninguém quer confrontar-se com a culpa de matar um Inocente. Ninguém quer ver-se capaz de tanta crueldade. A violência da Cruz incomoda-nos. A vergonha da Cruz faz-nos desviar o olhar. Mas, Ele não bebeu. Jesus queria estar perfeitamente preparado e consciente para realizar a Obra que o Pai lhe confiou. E, se queremos as bençãos da Cruz, também temos que aceitar a Cruz como ela é, a rude Cruz, emblema de afronta e de dor. E, prontamente confessar que, “aqui com Jesus, a vergonha da Cruz quero sempre levar e sofrer”, para que, “Quando Cristo voltar, quando ao Céu me levar, Sua glória eu possa receber.”

Agora, era Jesus que pedia de beber. “Tenho sede”. E, deram-lhe vinagre. (João 19:29) A resposta do Homem perante o sacrifício consumado do Cristo, a reacção às palavras de Esperança que saíram da Sua boca enquanto O maltratavam foi amarga. O suposto consolo e conforto que deram a Jesus apenas agravou o Seu sofrimento. A acidez do vinho azedo penetrando as Suas feridas ardia como fogo. A reacção do corpo era violenta, prolongando o sofrimento. No entanto, Ele bebeu, e suportou a última afronta de rebelião. Como diz, “Amando os Seus, Amou-os até ao fim”. (João 13:1)

Porquê? Por que é que Jesus se expôs à última violência? Por que ainda não estava tudo dito. Depois, da agonia no Jardim, da prisão e julgamentos sucessivos, do desprezo, das mentiras, dos abusos, do chicote, do arrastar da Cruz pesada, dos cravos, da coroa de espinhos, das quase 6 horas na Cruz, e com a Morte fechando as garras sobre o Seu corpo, Ele mal conseguia respirar. Os braços já não suportavam o peso do Seu corpo. A espaços, com muito esforço e dor, Ele erguia-Se sobre os pés, também eles cravados no Madeiro, e numa golfada, inspirava pela boca o máximo de ar que conseguia. A Sua boca estava seca. Os lábios gretados. A língua inchada e presa ao palato. Já mal conseguia respirar, quanto mais falar. Mas, ainda havia algo a dizer. O sacrifício não podia terminar em derrota, sem Esperança. Pediu de beber. Algo para molhar os lábios e a língua a fim de poder articular as palavras que precisava proclamar em alta voz. Não Lhe importava o sofrimento. Esta era a hora para que tinha vindo. E, tendo molhado os lábios, da Sua boca saíram as Palavras pelas quais toda a Criação ansiava. A vitória estava ganha. “Está consumado”. (João 19:30)

A Alvorada de uma nova Vida

O grande contraste do Calvário é entre o tenebroso coração pecaminoso do Homem, cheio de horrores e violência contra Deus, e, o coração amoroso, justo, e misericordioso de Deus.

A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis;
A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.
Atos 2:22-23

Mas vós negastes o Santo e o Justo, e pedistes que se vos desse um homem homicida.
E matastes o Príncipe da vida…
Atos 3:14-15

Aquilo que parecia ser um irremediável revés ao plano de Deus – afinal, o Seu Enviado tinha sido rejeitado e assassinado – foi transformado gloriosamente na melhor notícia para toda a Humanidade.

“pelo determinado conselho e presciência de Deus” (At.2:23)

Deus escolheu o caminho difícil do sacrifício. Escolheu porque antevia o fruto que daí resultaria. (Is.53:10-11) Jesus foi a oferta pelo pecado que eu e tu precisávamos para nos tornarmos aceitáveis para Deus. O fruto dessa oferta são as nossas vidas redimidas, perdoadas, justificadas. A Justiça e o Amor de Deus são conciliados na cruz. Eternamente. Mas, o plano de Deus é ainda mais glorioso do que isso.

Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela.
Atos 2:24

O Autor da vida não podia ser vencido pela morte. A pedra do túmulo foi rolada. Os panos removidos. E, as entranhas do sepulcro devolveram o Eterno, o Rei da Glória. Maria Madalena, Salomé, Maria, mãe de Tiago, Joana, Pedro, João, os restantes discípulos, incluindo Tomé, e mais de quinhentos irmãos testemunharam o Cristo Ressurecto. (Mt.28Mc.16; Lc.24; Jo.20,21; 1Cor.15:3-8)

Deus O exaltou (At.2:33,36; Fl.2:9-11) e Lhe confiou o poder de julgar com justiça. Ele que pagou o preço pelos pecados do Homem, julgará o Homem pela sua decisão em relação ao Seu sacrifício.

O Homem tenta fazer-se agradável a Deus de muitas maneiras, mas o padrão de Deus é exigente demais.

Quem subirá ao monte do SENHOR, ou quem estará no seu lugar santo?
Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente.
Este receberá a bênção do SENHOR e a justiça do Deus da sua salvação.
Salmos 24:3-5

Nenhum Homem pode atingir a exigência de santidade de Deus. Nenhum, excepto Cristo. Aquele que nunca pecou. Em quem nunca se achou engano. Depois do Seu sacrifício Ele pode apresentar-se na presença do Pai e dizer: “Está consumado!”.

Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória.
Salmos 24:7

Ele pode entrar no lugar Santo. Ele é o Rei da Glória. E nós entraremos com Ele quando nos arrependermos dos nossos pecados e O confessarmos como Senhor.

E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, homens irmãos?
E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo;
Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar.
Atos 2:37-39

Temos um Salvador vivo. Um Senhor que vive para sempre. Que reina. E reinará. Que intercede por nós. Que se compadece. Que está connosco até à consumação dos séculos. Que nos guarda. Que toma a nossa defesa. Que nos prepara um lugar na Sua presença. Que nos reveste de justiça. Que voltará para julgar em justiça. Por que Ele vive, podemos ter esperança.

Esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.
Atos 2:36

O dia em que o Universo ficou em silêncio

Silêncio. Só silêncio.

O corpo de Jesus foi baixado à pressa da cruz. (Mt.27:57-60; Mc.15:42-46; Lc.23.50-54; Jo.19:38-42) Aproximava-se o dia de sábado. Dia de descanso. Dia do Senhor. Como se celebra o dia do Senhor depois de assassinar o Seu Filho?

Os algozes de Cristo andavam ansiosos e inquietos. Nem mesmo a Sua morte lhes deu descanso. Talvez os discípulos roubassem o corpo. Talvez a Sua profecia de ressurreição se cumprisse. (Mt.27:62-66)

A cidade silenciosa. Nunca se tinha visto morrer um Justo. Depois da euforia, o remorso.

As mulheres que seguiam Jesus preparavam os unguentos e perfumes para a preparação do corpo no dia seguinte. As suas lágrimas misturavam-se com os aromas. A sua esperança estaria perdida para sempre? (Mt.27:61; Mc.15:40,41,4716:1; Lc.23.55-56)

Os discípulos sentiam o peso da derrota. O Mestre, que eles ainda secretamente esperavam que tomasse o poder, estava morto. O medo tomava conta do seu coração e eles escondiam-se em casa. O que seria deles?

Sendo dia, o silêncio cobria tudo como um manto negro. Mas, nos bastidores do universo algo acontecia. Uma Obra inimaginável.

“Porque uma visão um pouco arrepiante
Deixou sementes enquanto eu dormia
E a visão que foi plantada em meu cérebro
Ainda permanece dentro do som do silêncio”
Paul Simon & Art Garfunkel

Não te inquietes. O Domingo está a chegar.

(continua→)

Seis horas

A noite correu tenebrosa e agitada. Uma inquietação varreu a cidade, que amanheceu eufórica. A procissão até Pilatos. Depois Herodes. Pilatos de novo. A turba engrossava enchendo as ruas. Os rostos fechados. Os olhares destilando ódio. As vozes histéricas, que uma semana antes cantavam: “Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor!”, agora vociferavam palavras de desprezo e rejeição: “Crucifica-O! Crucifica-O!” (Mt.27:1-26; Mc.15:1-15; Lc.23:1-25; Jo.18:28-40; Jo.19:1-16)

O horror da noite anterior cresce. Um julgamento pré-arranjado, injusto, parcial, ilegal. As punições físicas que levam o Seu corpo aos limites. O rosto desfigurado. As costas rasgadas. O peso da cruz, insuportável. A  caminhada solitária para a morte. (Mt.27:27-37; Mc.15:16-24; Lc.23:26-33)

Nas prisões, quando um condenado à morte vai a caminho da sua execução ouve-se o maldito refrão: “Dead man walking!” – homem morto passando. Era assim que todos O viam.

Os Seus sofrimentos culminam no Gólgota. As seis horas mais negras e gloriosas da história da Humanidade. Porque demonstram toda a fealdade do pecado no coração do Homem. Porque provam o Amor Sublime de Deus por aqueles que O rejeitam. Ali, pendurado entre o Céu e a Terra, Jesus começa o Seu papel de grande Mediador entre Deus e os Homens. (Mt.27:38-54; Mc.15:25-39; Lc.23:34-48; Jo.19:17-37)

Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!” (Lc.23.34) – Ele é o Intercessor, e estende perdão aos contritos.

Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lc.23:43) – Ele é quem pode conduzir o Homem a Deus e garantir a sua aceitação perante o Santo.

“Mulher, eis aí o teu filho. Eis aí a tua mãe. Ele cuidará de ti .” (João 19:26,27) – Ele é a fonte, a base, e a garantia do Amor e da perfeita comunhão.

“Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste.”  (Mateus 27:46) – Ele pagou a penalidade que nós merecíamos pelo nosso pecado. Desamparado, para poder amparar-nos.

Tenho sede.” (João 19:28) – Ele é o perfeito Homem, que tendo padecido todas as coisas, como nós, pode compadecer-se perfeitamente da nossa miséria e lutas.

Está consumado.” (João 19:30) – Ele satisfez a justiça de Deus. Venceu o pecado. Venceu Satanás. Venceu a Morte.

Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” (Lucas 23:46) – Ele cumpriu a vontade do Pai até ao fim, e a Sua obra agradou-Lhe em tudo.

A Terra reagiu violentamente à morte do Seu Criador. Revolveram-se as suas entranhas perante o horror da cruz. O universo apagou-se. As trevas encheram o mundo. Os homens que abandonam o Gólgota batem no peito e choram: “Este verdadeiramente era o Filho de Deus!” (Mt.27:54; Mc.15:39; Lc.23:47-48)

Matámos o Filho de Deus. E agora?

(continua→)