Brincar às escondidas

Quando me detenho a meditar nas questões da fé encontro frequentemente grandes desafios. Nestes últimos dias, o Salmo 139 tem estado presente no meu espírito. Este Salmo é um hino majestoso à soberania de Deus, expressa na Sua Omnisciência (vs. 1-6), Omnipresença (vs. 7-12) e Omnipotência (vs. 13-18).

A questão que me sobressalta prende-se com a reacção de David perante este Deus Santo (vs. 19-20) e Supremo: “Sonda-me, ó Deus…” (vs. 23).

Jogo das escondidas

 

Somos formatados para manipular a verdade a nosso favor, para esconder os nossos sentimentos e a ocultar os fracassos. A mentalidade secular faz-nos crer que para sermos aceites e bem-sucedidos não podemos mostrar quem somos. Vivemos numa grande mascarada. Não gostamos de ser julgados, nem sequer criticados, porque sentimos isso como um ataque pessoal, e não como uma ferramenta para mudar e crescer.

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos.
E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.
Salmos 139:23-24

O convite ao exame externo de David é por isso estranho. Ainda mais quando consideramos que ele lança o apelo ao Deus-que-tudo-sabe-vê-e-pode. A sua atitude contrasta com a de Adão e Eva que se esconderam de Deus no Jardim (Gn.3:1-11). Ou, com a de Caim, após ter assassinado o seu irmão, que se escusa a assumir responsabilidade perante Deus (Gn.4:1-9). Ou, com a dos homens ímpios que dizem: “Não há Deus!” (Sl.14:1, Sl.53:1). Ou, ainda, com a de todos os homens e mulheres, que de uma ou outra maneira, não glorificam a Deus, mudam a Sua glória e manipulam a Sua verdade, para que possam apaziguar as suas consciências acusadoras e seguir pecando (Rm1:21-32).

O exame a que David se expõe é:

1. Profundo.

Nota as expressões que David usa:

  • “Sonda-me” – o significado imediato da palavra é penetrar. No contexto, refere-se a examinar intimamente, procurando, descobrindo e provando todas as coisas.
  • “Conhece” – a raiz da palavra pode ter um significado amplo. No contexto, refere-se a um conhecimento total sobre o coração através de observar, reconhecer, discernir e compreender tudo a seu respeito. Tal conhecimento confere domínio e posse.
  • “Prova-me” – o significado imediato é testar, especialmente os metais. A ideia é a de um teste que põe à prova os limites do material. No contexto, refere-se a investigar, examinar e provar pelas tribulações.
  • “Vê” – o significado imediato é olhar atentamente. No contexto, refere-se a um exame por observação cuidada, espiar de perto para discernir intenções.

David, que conhece o Deus a quem agora se entrega, sabe que não pode esconder nada d’Ele. Por isso, expõe-se a um exame rigoroso, onde nada será deixado de parte. Ele não quer apenas aliviar a sua consciência, dizendo: “Senhor, olha isto ou aquilo que fiz.” Ele quer entregar-se completamente a Deus.

2. Íntimo.

David pede que Deus examine o seu coração.  Na Bíblia, o coração refere-se ao centro e ao mais íntimo do nosso ser. É a sede das emoções, da vontade, e mesmo da razão e intelecto.

David queria que todo o seu ser fosse sujeito a Deus. Tudo o que ele era, sem restrições, sem máscaras, sem dissimulações. Ao contrário de Adão, que fez para si aventais de folhas para cobrir a sua nudez (Gn.3:7-11), David expõe-se nu perante Deus.

3. Abrangente.

David expõe o seu coração, mas também os seus pensamentos. As preocupações, cogitações, e todos os planos estavam diante do Senhor. O exame não só é pessoal e íntimo, como também alcança todas as áreas da vida. Nada fica de fora de todas as realizações de David. A família, o trabalho, os projectos futuros, as amizades. Tudo.

4. Corrector.

A preocupação de David é conhecer os “caminhos maus” que possam dominar a sua vida. Na linguagem original, a raiz da palavra para mau pode significar:

  • sofrimento ou dor
  • perverso
  • ídolo

David quer saber se o seu coração, ou os seus pensamentos, estão a seguir num caminho que o conduza a sofrimento, impiedade e pecado, ou idolatria. Blaise Pascal é o autor da famosa frase: “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” David reconhece que não é capaz de garantir que as suas escolhas serão sempre certas, porque há caminhos que ao homem parecem bons, mas o seu fim é a morte (Pv.16:25). Por isso, ele entrega-se ao exame divino para que o Deus-que-tudo-vê-e-sabe lhe mostre a realidade do seu coração.

5. Consequente.

O objectivo de David não é aumentar o seu auto-conhecimento pelo caminho da introspecção. Muitos apontam esse caminho como a fonte de maturidade e equilíbrio. Pelo contrário, David entrega-se a um exame externo, e está disposto a submeter-se às conclusões. A sua súplica é: “… guia-me pelo caminho eterno.” A ideia aqui expressa é mais do que apenas sugerir ou apontar alternativas. Guiar é liderar. Liderar é governar. David entrega-se totalmente à vontade de Deus para a sua vida. Ele sabe que ela é boa, perfeita e agradável. Ele confia que Deus endireitará os seus caminhos.

Enquanto a maior parte dos homens foge de Deus, David entrega-se a Ele. Tendo consciência das suas falhas e pecado, ainda assim não tem medo de se apresentar diante de Deus, que é Santo. Porquê? Porque confia nas Suas misericórdias, e sabe que só por elas poderá subsistir (Sl.51:1)

Esconderes-te de Deus não mudará nada. Deus continuará a ser Deus. E tu, continuarás pecador. Vem hoje a Ele. Entrega-te à Sua misericórdia. E, ora como David orou:

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos.
E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.
Salmos 139:23-24

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