A Cruz de Cristo

“… a cruz a tudo transforma. Ela dá um relacionamento novo de adoração a Deus, uma compreensão nova e equilibrada de nós mesmos, um incentivo novo para a nossa missão, um novo amor para com os nossos inimigos e uma nova coragem para enfrentar as perplexidades do sofrimento.”

John Stott em “A Cruz de Cristo” (1986)

Pai, perdoa-lhes…

Esta era a hora. Dos homens. E do poder das trevas. A elite religiosa da Judeia rejeitou, prendeu, acusou, julgou e determinou matar Jesus. A turba histérica antes em êxtase com os milagres agora vocifera: crucifica-O. O poder político de Roma despreza o insignificante judeu acusado de ameaçar o domínio do Império.

De alguma forma todos nós estávamos representados naquele dia. No apego ao poder, à “liberdade” de poder escolher o nosso rei. No egoísmo cego de querer as bênçãos sem a obediência. Na rejeição da Luz porque preferimos amar o pecado nas sombras. Cada um de nós crucificou a Jesus.

Nas seis horas que esteve no Calvário Jesus falou por sete vezes. As primeiras palavras subiram para o Pai em favor dos Seus algozes. “Pai, perdoa-lhes…” A comunhão de Jesus com o Pai não podia ser mais íntima ou profunda. Ele estava no princípio com Deus. Ele e o Pai são Um. O prazer de Jesus é fazer a vontade do Pai. O prazer do Pai é o Seu Filho Amado. Antes da fundação do mundo Jesus, o Cordeiro de Deus estava preparado para esta hora. Isso, no entanto, não diminuia o sofrimento nem o terror dos acontecimentos. No Getsmani, Jesus orou com suor de sangue e lágrimas: “Pai, se possível, passa de mim este cálice.” Não lhe passava pela cabeça fugir da sua missão. Ele buscava o conforto do Pai, e teve-o. Agora, de alguma maneira era Jesus quem confortava o Pai. Imagina, por momentos, o que Deus, o Pai, sentia ao ver o Seu Filho amado maltratado daquela forma. Nós, que somos maus, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos. Erguemo-nos como leões na defesa daqueles que amamos. Quanto mais Deus, o Pai celestial! Apesar, de lhe ter “agradado moê-lo” não houve nisso nenhum sentimento perverso ou sádico. O sofrimento de Jesus não lhe era indiferente. Foi tolerado porque Deus sabia o fruto que viria daí. E que glorioso fruto! Tal como Jesus buscou conforto para suportar o horror da cruz, o Pai encontrou conforto na obediência fiel do Filho que lhe suplica: “Pai, retém a tua ira. Não os destruas. Não os firas. Eu cumprirei a missão até ao fim. Eu estou pronto. Perdoa-lhes!”

Jesus sabia do custo do perdão. Mesmo assim, ele pede. O perdão divino não é um olhar para o lado. Não é possível a Deus ignorar as nossas ofensas. “A alma que pecar essa morrerá”. O pecado é uma ofensa tão grave à santidade, à justiça e ao Amor de Deus que as suas consequências são na mesma proporção: morte. Cada um dos teus pecados é uma sentença de morte. Não somos maus porque cometemos muitos pecados. Há uma perversidade na mentira que contamos a nós mesmos quando nos compararmos uns com os outros – a de que somos bons. Um pecado, um único pecado, pequeno que seja aos nossos olhos, recebe o mesmo castigo que mil pecados, ou dez mil, ou os mais de 65 mil que já terei cometido ao ritmo de cinco a cada dia dos meus 36 anos. Uma mentira igual a um roubo. Um mau pensamento igual a um estrupo ou adultério. Um rancor igual a um homicídio. Onde está a justiça nisso, clamamos? O nosso escândalo é natural. Ainda nos julgamos bons. Para compreender a severidade do castigo é preciso considerar a dignidade do ofendido – o Criador, o Sustentador e Soberano sobre todas as coisas, a fonte de todo o Bem, o Santo, a Verdade, a Justiça, o Amor perfeito, Deus. O teu pecado é digno de morte. A dívida de justiça terá que ser paga. Vida por vida, foi assim que Deus ensinou desde a Queda. Para que um seja perdoado outro deve morrer em seu lugar. Primeiro, foram os sacrifícios dos animais. Agora, um novo sacrifício é preparado. “Perdoa-lhes…” pede Jesus. “Eu pago a dívida.” Paulo ao escrever aos Colossenses diz: “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz.” (Cl.2:14) Cada um dos teus pecados levou Jesus à cruz. Ali, ao invés de clamar ao Pai para que envie as Suas legiões e O livre dos seus inimigos, Jesus entrega-se como o sacrifício que trará perdão àqueles que O poem à morte. Aos judeus. Aos romanos. A mim. E a ti.

Eles não sabem o que fazem.” João narra a Encarnação dizendo que a verdadeira Luz, Jesus, veio ao mundo, mas o mundo não O conheceu nem compreendeu. Vai mais longe e diz que Jesus veio para o que era seu, mas os seus não O receberam. Como explicar a rejeição de Jesus? Os judeus aguardavam com tanta ansiedade e expectativa a chegada do Messias, como é possível que, quando Ele veio, e apesar de todos os sinais e maravilhas, e do cumprimento de tantas profecias na Sua vinda, não O tenham reconhecido e celebrado a Sua chegada? O próprio Jesus oferece explicação: “São cegos, guias de cegos.” (Mt.15:14) A sua cegueira é fruto do pecado e da acção directa do deus deste século, o diabo, que “cegou os entendimentos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2Cor.4:4) “Eles não sabem o que fazem.” Estará Jesus a insistir no perdão dos seus inimigos porque eles, coitados, não são responsáveis pelo que fazem? Longe disso. Podemos não entender a total severidade da nossa culpa ou a profundidade da nossa responsabilidade perante Deus, mas sabemos distinguir entre o Bem e o mal, a Justiça e a injustiça, a Verdade e a mentira, a Bondade e o egoísmo e maldade, a Pureza e a perversidade. Cada um de nós sabe da sua culpa perante Deus. A nossa cegueira maior não está em que não possamos ver a Luz, mas em que vendo amamos mais as trevas. Jesus disse que não nos chegamos à Luz para que as nossas obras más não sejam manifestas. Amamo-nos mais a nós do que a Deus. Esse é o problema fundamental do pecado. Desde a Queda que a grande sedução do pecado e da rebeldia contra Deus é que queremos ser nós mesmos deuses. Nessa senda tenebrosa, escolhemos não glorificar a Deus, não Lhe dar graças, mudamos a Sua glória, diminuindo-O, trocamos a Sua verdade por mentiras (Rm.1). Escolhemo-nos a nós e não a Ele. E somos inteiramente responsáveis por essa escolha. “Eles não sabem o que fazem.” Estamos de tal modo embriagados pelo pecado que não compreendemos o alcance da nossa rejeição do Cristo. Não conseguimos olhar para Ele como totalmente desejável. A mentalidade do Jardim do Éden ainda domina o nosso coração. Tantos milénios depois ainda julgamos ser possível alcançar a promessa da serpente e “ser como Deus”.

Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem.” Jesus entrega-se como substituto daqueles que O odiavam. Ele sabe que ao ser levantado naquele madeiro atrairia muitos a Si. A Cruz é o brilho máximo da Sua Luz. Nela, Jesus triunfou publicamente sobre os Seus inimigos. Tal como o irmão Max Lucado escreveu:

“Nunca aqueles braços se abriram num abraço tão grande como quando estavam naquela cruz romana. Um braço estendendo-se para trás na história e o outro alcançando o futuro. Um abraço de perdão oferecido a todos os que vierem. A galinha ajuntando os seus pintos. O pai recebendo os seus filhos. Um redentor redimindo o mundo. Não admira que o chamem Salvador.”

Em Cristo

A transformação operada por Deus na vida daqueles que crêem é tão profunda que a Bíblia fala dela em termos de uma nova identidade. Há uma vida velha que corresponde a uma identidade velha e corrupta, que dá lugar a uma nova vida em Cristo. Em nenhum lugar das Escrituras esta nova vida é apresentada como existindo além, fora ou à parte de Cristo. É em Jesus Cristo, na Sua vida, que encontramos a realidade da nossa nova identidade. Mais de 100 versículos por todo o Novo Testamento nos falam directamente dessa transformação que é estar em Cristo (ver infográfico).

Em Cristo

Por diversas vezes somos exortados pelas Escrituras a assumir frontalmente e com ousadia essa nova identidade. Quero recordar-vos dois textos em que o próprio Jesus nos desafia.

Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.
Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.
Mateus 10:32-33

Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos.
Lucas 9:26

Estes desafios e avisos solenes de Jesus surgem num contexto particular – Jesus estava a enviar os seus discípulos ao mundo como Suas testemunhas. Muitas dificuldades e desafios à fé surgiriam, e era precisamente nesses momentos que os discípulos iriam mostrar a sua verdadeira identidade. Confessar ou negar a Cristo? Ter vergonha ou ser ousado? As tribulações que viriam separariam os verdadeiros filhos de Deus daqueles que O seguiam com motivações humanas.

O que significa confessar a Cristo?

Confessar a Cristo é mais do que palavras. É a atitude activa de reconhecer a Jesus Cristo na minha vida quer por palavras quer por actos. Saliento três implicações de confessar a Cristo:

  1. Confessar o nosso pecado e incapacidade de nos salvarmos a nós mesmos. É uma declaração de falência e fracasso. Mas, ao fazê-lo entramos no gozo das promessas de Deus (1Jo.1:8-10)
  2. Confessar que a nossa esperança de salvação está em Jesus Cristo e na obra que Ele realizou na cruz. É uma declaração de rendição. Mas, esta é a rendição que nos garante a vitória (Rm.10:9-13)
  3. Confessar que a nova vida que vivemos não é na nossa força mas pelo poder da Sua vida em nós. É uma declaração de propósito, vivemos para a sua glória (Gl.2:20).

O que significa envergonhar-me de Cristo?

A questão da vergonha vai fundo nos nossos corações. Ela discerne as intenções e motivações. O nosso prazer deve ser gloriar-nos no Senhor. Isso significa alegrar-nos, ter orgulho e vaidade por Ele, desejar mostrar a todos quem Ele é. A vergonha é a negação de toda a transformação do nosso coração. Três áreas em que muitas vezes nos envergonhamos do Senhor:

  1. Colocar os meus interesses acima dos dele (Lc.9:23, Mt.10:37-39). Ao fazer isto estou a dizer que a minha vontade é melhor do que a dele. Que me satisfaço mais em seguir o meu coração do que em agradá-lo.
  2. Colocar a minha segurança acima da Sua glória. (Lc.9:24, Mt.10:34-35). Quando escondo o facto de que sou cristão ou quando faço alguma coisa que sei que não devo só para não ser prejudicado, mostro que não estou disposto a sofrer por amor d’Ele. Na prática, estou a dizer que o meu nome é maior (mais importante) do que o Seu Nome.
  3. Considerar a obediência à Sua vontade como um fardo. Muitos obedecem a Deus por obrigação, por medo ou até por interesse. Poucos são os que encontram satisfação em agradar-lhe só porque Ele é digno. Consideramos a vontade de Deus e parece-nos que Deus só diz: “Não!” A vontade de Deus é entendida como uma limitação à nossa, e por isso estamos sempre em confronto com Deus. Mas, não precisa ser assim, pois o seu fardo é leve e o seu jugo suave (Mt.11:28-30)

É tempo de assumir a nossa identidade. Sem vergonha. Sem medo. Com ousadia. Confessando alegremente a Cristo.

Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. (Rm.6:11)

O firme Fundamento

Por isso diz o Soberano Senhor: “Eis que ponho em Sião uma pedra, uma pedra já experimentada, uma preciosa pedra angular para alicerce seguro; aquele que confia, jamais será abalado.
Isaías 28:16

Olhando as várias traduções deste texto aprendemos que aquele que confia em Jesus:

  • Jamais será abalado. (NVI)
  • Não tropeçará. (VC)
  • Não se apresse (ou, não tem necessidade de fugir). (ACRF)

Qual é o teu fundamento?

A Glória de Deus – parte II: A resposta do Homem

Cristiano Ronaldo ou Leonel Messi? Sporting ou Benfica? Futebol europeu ou americano? Basebol ou basquete? WRC ou Fórmula 1? Al Pacino ou Sylvester Stallone? Haverá sempre adeptos de uns e de outros. Cada qual defensor acérrimo da glória do seu preferido e pronto a amesquinhar os feitos dos adversários.

A percepção da glória não é unânime. Isso pode parecer estranho uma vez que a glória está ligada a algo belo, majestoso, incrível, talentoso ou surpreendente. Creio que há pelos menos três factores que determinam a nossa diferente percepção da glória.

1. A sensibilidade pessoal.

Para alguém apreciador da natureza um colorido por-do-sol é uma visão gloriosa e incomparável. Nada satisfaz mais a sua alma. Mas, outro amigo mais dado à ciência e engenharia, encontra o mesmo êxtase estético ao contemplar um magnífico edifício que leva ao expoente máximo o engenho humano. Qual dos dois tem razão? Os dois. Há coisas que são naturalmente mais atrativas para nós do que outras. Mas, embora com maior inclinação para um ou outro cenário, perante uma visão gloriosa, todos reconhecem estar perante algo majestoso.

2. A falibilidade do objecto de glória.

Tão depressa somos elevados ao êxtase perante uma visão da glória – lembras-te do ciclista americano Lance Armstrong que venceu por 7 vezes consecutivas a Volta à França – como sucumbimos ao descobrir nela alguma falha – Armstrong perdeu os 7 títulos e foi banido do ciclismo mundial por ter usado dopagem para aumentar a sua performance.

3. A perversão do nosso coração.

Voltando à rivalidade entre Ronaldo e Messi. Quando os defensores de um e de outro debatem as virtudes do seu favorito normalmente falam do opositor de uma maneira como se não soubesse jogar à bola. “O quê? O Ronaldo? Ele só sabe correr e chutar em frente. O Messi é que é, parece que tem a bola colada aos pés.” O modo como reagimos revela o que está no nosso coração. Muitos rejeitam o Cristiano Ronaldo porque ele ostenta a sua riqueza. Tem boas casas, muitos carros, roupas luxuosas. Por isso não gostam dele. São capazes de ignorar todo o seu talento, os feitos desportivos, o trabalho esforçado que lhe é reconhecido por todos, apenas por algo que consideram uma falha no seu imaginário do que deve ser o melhor atleta. A real motivação para esta atitude é muitas vezes uma inveja encapotada, um orgulho ferido e um ressentimento contra aqueles que atingiram aquilo que não somos capazes.

Estes três factores não trabalham isoladamente, mas estão encadeados uns nos outros, explicando-se uns aos outros. Porque é que eu prefiro uma coisa em relação a outra? Porque vejo mais virtudes ou menos falhas nela. Porque é que eu exalto as falhas e ignoro os feitos incríveis? Por causa da inveja do meu coração.

Esta análise faz-nos entender um ponto importante sobre a percepção da glória. A percepção que temos de algo glorioso não depende tanto do objecto de glória mas do sujeito exposto a ela. Quer dizer, o por-do-sol é sempre glorioso em si mesmo, mas, a minha percepção dele torna-se subjectiva por causa do meu coração.

A resposta do Homem à glória de Deus

Vamos aplicar os conceitos anteriores à nossa relação com Deus. Todos reconhecemos que há uma grande diversidade de reacções do Homem perante Deus. Há os ateus, que na verdade são odiadores de Deus mais do que homens que não acreditam na Sua existência. Os agnósticos, que na realidade são homens que escolhem ignorar todas as evidências da divindade. E, depois, há os crentes. Aqui também encontramos um largo espectro de reacções. Há aqueles que dizendo-se crentes simplesmente ignoram completamente aquilo que Deus diz. Há os outros que torcem aquilo que Deus diz conforme a sua própria conveniência. E, há aqueles que reconhecendo a Glória de Deus entregam as suas vidas à exaltação do Seu Nome, pela obediência humilde à Sua vontade, satisfazendo as suas almas na comunhão com o Eterno.

Mas, porque é que reagimos de modo tão diferente perante Deus? Já consideramos que há alguns factores que interferem com a nossa percepção da glória. Mas, Deus é diferente – porque Ele é Santo. Dizer que Deus é Santo é dizer que nele não há subjectividade nenhuma. Ele é absoluto. Absolutamente perfeito. Absolutamente glorioso. Absolutamente desejável. Não podemos olhar para Deus – para as Suas obras ou palavras – e pensar: “Sim, isto é bom, mas se fosse diferente podia ser melhor.”  Por outro lado, dizer que Deus é Santo significa que nele não há falhas. Ele é perfeito, sempre fiel a Si mesmo, infalível, sem pecado, sem enganos. Mesmo quando manifesta atributos aparentemente contrários – Amor e Ira, por exemplo – não há nele nenhum fracasso. A Sua glória é incomparável. Ele é Santo.

A própria natureza de Deus elimina os dois primeiros factores que consideramos anteriormente. Não há absolutamente nada em Deus que possa tornar a nossa percepção dele subjectiva ou passível de críticas. Ou seja, perante Deus a nossa resposta natural deveria ser de total assombro pela Sua majestade e satisfação em conhecê-lo, adorá-lo e servi-lo. Mas, não é. Isso leva-nos a considerar o terceiro factor – o nosso coração.

coração duro

O coração humano – rebelde até ao âmago

Quando a Bíblia fala do coração refere-se ao nosso íntimo, à mente, à vontade, às paixões ou inclinações, os desejos e sentimentos, ao centro ou âmago de quem somos. Sobre o nosso coração diz:

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? Jeremias 17:9

Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios,
a cobiça, as maldades, o dolo, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a insensatez;
todas estas más coisas procedem de dentro e contaminam o homem. Marcos 7:21-24

Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamenteGênesis 6:5

Como é que um coração como este reage à manifestação da glória perfeita e absoluta de um Deus Santo? O texto de Romanos 1 ajuda-nos a entender. Vimos anteriormente (aqui) que a glória de Deus pode ser percebida em três níveis de revelação crescente:

  1. A Criação.
  2. A Palavra.
  3. A Santidade.

Nós reagimos a cada uma dessas revelações divinas. Diante da Criação não glorificamos a Deus, não Lhe damos graças, e mudamos a Sua glória incorruptível na semelhança do que é corruptível (vs.19-23). Mascaramos a nossa rebelião com o rótulo da ciência, mas aquilo que realmente não queremos fazer é reconhecer o Poder absoluto e a Soberania majestosa de um Criador que tem domínio sobre nós.

Conhecer a Palavra de Deus, que expressa a Sua vontade perfeita, boa e agradável (Rm.12:2), não desperta em nós melhor reacção. Trocamos a Verdade por mentira (vs.25). Perdemo-nos nos nossos próprios pensamentos (vs. 21 e 22) e chamamos-lhe Filosofia, Psicologia, Humanismo, Sociologia, Política. Tudo com o propósito final de roubarmos a glória que pertence a Deus para a colocarmos sobre nós (vs.25).

Como se essas tentativas de obliterar Deus dos nossos pensamentos não fossem suficientes, desenvolvemos um coração duro, insensível a Deus, uma consciência que abafa todo o Seu chamado, não nos importando com Ele, as Suas obras, Palavra ou Glória. Na nossa dormência ficámos indiferentes a Deus (vs.26). E, chamamos a isso Tolerância. Sob a capa do respeito mútuo silenciamos a Voz divina que nos chama à verdade (vs.32).

Resolução268 - resposta do Homem

O texto de Romanos continua descrevendo o nosso coração. Clamamos desesperadamente: “Não há Deus!” (Sl.14:1). Porque é que somos assim? De onde vem tanta revolta e raiva contra Deus? “Porque todos pecaram” (Rm.3:23) O pecado rouba-nos do gozo e satisfação na glória de Deus. O versículo continua e diz: “… e estão destituídos da glória de Deus” (Rm3:23) Por causa do pecado, a glória de Deus torna-se incómoda para mim. Eu não sou capaz de desfrutá-la ou de ser maravilhado por ela. Estou separado da doçura dessa Presença Santa, e só me resta uma certa expectativa de terror que me leva a afrontar Deus.

Mas, o texto expressa outra ideia. É que, porque sou pecador, aquilo que eu mais preciso é de ser inundado pela glória de Deus. A minha maior necessidade, aquilo que me curará do meu pecado é exactamente aquilo de que o meu pecado me afasta – Deus. Algumas versões traduzem o texto como “Todos pecaram e carecem da glória de Deus”. Como resolver este dilema? Veremos isso no próximo artigo.

Como é que conhecer o meu coração muda a minha cosmovisão?

Deixo duas conclusões e desafio-vos a partilharem os vossos pensamentos nos comentários ou no Facebook.

  1. Tenho de vigiar constantemente sobre o meu coração porque na primeira oportunidade ele levar-me-à para longe de Deus. Embora eu tenha recebido um novo coração da parte de Deus que tem prazer na Sua glória, os resquícios da velha natureza irão assumir o controlo sempre que eu lhes der uma oportunidade. Por isso, devo testar todos os meus pensamentos, vontades, planos e atitudes pela Palavra de Deus, para que não me desvie dele seguindo após o meu próprio coração.
  2. Agora entendo porque tantas pessoas fazem escolhas erradas e contrárias à vontade de Deus. É a sua natureza. Eles são incapazes de fazer o Bem. O melhor que tenho a fazer não é pregar um Moralismo superficial que não transforma o coração, mas anunciar o Evangelho da glória de Deus que tem o poder de mudar corações e transformar vidas.