O Olhar do Pai

“Orando pela chuva que sara
Para restaurar a minha alma.

Sou um farrapo em fuga.
Como cheguei aqui?
O que é que eu fiz?
Quando é que a minha esperança se vai erguer?
Como vou conhecê-lo?
Quando olho nos olhos do meu pai.”

(Eric Clapton, My father´s eyes, 1998)

Eric Clapton escreveu esta música inspirado no pai que nunca conheceu. Apesar dessa distância entre eles, transparece nas palavras do poema um anseio por comunhão que nunca poderá existir. Uma esperança de que no olhar do pai se encontra as respostas que buscamos.

Hoje, a R. adormeceu a olhar para mim. Estávamos na rua, e ela no seu carrinho de passeio. Os seus olhos estavam pesados de sono, mas ela resistia. Talvez a agitação em volta não ajudasse. Alguns minutos depois, o meu olhar cruzou-se com o dela. Ela fitava-me. Demorou-se um segundo e fechou os olhos, dormindo. Senti como se ela esperasse por aquele último olhar do pai, para lhe dar a confiança e segurança, para depois dormir. Sorri, enternecido. E, no meu coração, alegrei-me por reconhecer na simplicidade deste episódio o amor que ela tem por mim.

Lembrei-me da música de Clapton, e de um texto das Escrituras ainda mais relevante:

“Porque, quanto ao SENHOR, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é perfeito para com ele.”
2 Crónicas 16:9

Deus procura-nos com os seus olhos para nos dar a segurança, confiança, descanso e a força que necessitamos. Será que o Seu olhar encontrará o teu?

A mão do Pai

Hoje fiquei a tomar conta dos filhos! 🙂

Depois da brincadeira chegou a hora da caminha, e, contrariamente ao habitual hoje quem não queria dormir era a R.. Normalmente, é só aconchegá-la no quentinho e ela adormece sozinha. Hoje, estava inquieta. Remexia-se. Chorava. Lamentava-se. Perdia a chupeta. A respiração rápida, de quem não está tranquilo.

Depois de algumas tentativas, deixei-me ficar ao lado do berço, e simplesmente segurei a sua mão no escuro. Em segundos, a respiração acalmou. E, adormeceu.

Lembrei-me de um texto de Isaías, em que Deus assegura:

“Porque eu, o SENHOR teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, eu te ajudo.” Isaías 41:13

Deixa que Ele segure a tua mão e te sossegue.

Segredo da felicidade?

Numa conversa de trabalho que tive esta semana, alguém se queixava da dificuldade em agradar aos pacientes. Num caso recente, uma senhora fizera um trabalho extenso e caro, saiu satisfeita do consultório, para uns dias mais tarde vir reclamar por não gostar da cor dos dentes. Queria-os mais brancos! Ainda que ficássem completamente diferentes dos restantes. Era um problema difícil de gerir. A solução proposta por essa pessoa era dar aos pacientes exactamente aquilo que eles pedem, por muito estranho ou “errado” que pareça ao médico. Assim, depois não podem reclamar.

Fiquei a pensar no assunto. Até que ponto é que essa proposta era válida, ou a chave para o sucesso? Se, por um lado, devemos ir ao encontro das expectativas dos pacientes; por outro, cabe-nos trazer a sensibilidade profissional para a tomada de decisões de modo a efectivamente proporcionar o melhor tratamento possível a cada indivíduo. E, nem sempre o que o doente quer é o melhor para ele.

Dar ao outro o que ele quer não é a fórmula da felicidade. Todos os pais sabem disso. Os amigos sabem. Os amantes. Essa ânsia de constantemente agradar o outro anulando-se a si mesmo resulta em auto-estimas esmagadas, ódios reprimidos, queixas silenciadas. Um conflito eminente que não traz felicidade.

Quem recebe, não fica melhor. O vazio interior não é saciado com os constantes “sim”. A insatisfação, a incapacidade de apreciar o outro ou o prazer de atingir as metas, a indiferença, escavam um fosso cada vez maior na realização pessoal.

Dou graças a Deus, por Ele não me dá tudo o que eu quero. Não espero isso dEle. Esse deus não me serviria. Não evitaria os meus desastres. As frustrações. Quero um Deus que aja como um Pai, sabendo o que é melhor para os seus filhos. Restringindo. Avisando. Disciplinando. Negando. Elogiando. Surpreendendo. Compreendendo. Dirigindo. Até à maturidade.

O caminho da felicidade não se faz com o que eu quero, mas com o que eu preciso. O que eu quero nem sempre é o melhor. Mas, Deus, que me dá o que eu preciso, sabe fazer-me feliz. 🙂

Desejo ardente

O primeiro dia em casa com a família completa despertou alguns ciúmes no J. e na I. Andaram o dia todo a pedir mimo, a chamar a atenção, a amuar. Perante a chegada da pequena R. tentaram marcar o seu território! 🙂

A fome de colo dos meus filhos lembrou-me de como o Amor verdadeiro também tem ciúme. Um ciúme bom, de querer estar perto, de beber todo o carinho, da procura do toque, do afecto. Mas, esse comportamento esconde uma insegurança: o medo de perder o colo do pai.

Hoje, tenho a visão do outro lado: a do pai. E, na perspectiva do pai, o seu colo será sempre do tamanho dos seus filhos. Costumo dizer que no meu colo cabem todos os filhos, é um colo grande, generoso e disponível.

Pensei no relacionamento que muitas vezes temos com Deus. Sendo filhos cambaleamos entre dois estados de espírito: ou nos desinteressamos por Ele ou ardemos de ciúmes tontos alimentados pelos nossos medos.

Esquecemo-nos de quem é o nosso Pai. O Deus-Amor cujo colo não se esgota.

 

Sede agradecidos

Passam hoje exactamente 3 meses desde o meu último post. Os 92 dias que os separam foram um verdadeiro turbilhão. O consultório encerrado para uma remodelação que de 3 semanas se fez 3 meses – e a penalização económica correspondente. A gravidez de risco da S. que a obrigou a repouso absoluto. As doenças do J. e da I. que os aborreceram por semanas.

“E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações;” (Colossenses 3:15)

Apesar de tudo houve paz. O tempo que passei em casa permitiu-me acompanhar a fase difícil da S. e dos filhos. Se estivesse a trabalhar teria sido bem mais difícil. E, mesmo não trabalhando, Deus supriu as nossas necessidades.

Durante esse tempo, Deus colocou um cântico no nosso coração. Chamamos-lhe “Vida Real”. A certa altura diz assim, “Sem o Teu amor eu já não sei viver. És tudo o que preciso para uma vida real“. O texto de Colossenses citado acima exorta-nos a deixarmos para trás tudo o que é velho na nossa vida e a revestirmo-nos de Cristo. O verso 14 diz: “(…) revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” Mergulhados no Amor do Pai somos dominados pela Sua Paz, que vai muito além do nosso entendimento. Essa é a Vida Real!

“E, sede agradecidos.” (Colossenses 3:15)

Hoje, sentado com a filhota recém-nascida no braços, abraçado pela S., juntinho ao J. e à I., tenho apenas uma coisa a dizer:

“Obrigado, Pai.”