A igreja local – oficina espiritual do Amor

“A igreja local, portanto, pode ser vista como uma oficina espiritual para o desenvolvimento do amor agape. As tensões e restrições de uma comunhão espiritual oferecem a situação ideal para testar e amadurecer de todas as importantes qualificações para a nos submetermos a Deus.

A maioria das controvérsias nas igrejas locais são produzidas, não primeiramente sobre diferenças no essencial, mas pelas ambições humanas não santificadas, invejas e choques de personalidades. A verdadeira raiz de muitas destas situações é a pequenez espiritual de crentes individuais, revelando uma lamentável imaturidade em amor. Por isso mesmo a congregação local é um dos melhores laboratórios onde os crentes individuais podem descobrir a sua carência espiritual e começar a crescer em amor agape. Isto é alcançado através de verdadeiro arrependimento, humilde confissão dos pecados de ciúme, inveja, ressentimento, etc., e pedindo perdão uns aos outros. Esta abordagem resultará em crescimento real no amor que tudo cobre.”

– Paul E. Billheimer, em Love Covers

– citado por Alexander Strauch em Biblical Eldership – An Urgent Call To Restore Biblical Church Leadership

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A glória de Deus – parte III: Graça, Misericórdia e Juízo

Tenho três crianças pequenas em casa. A maior parte do tempo eles esforçam-se por afirmar a sua individualidade. A R., a mais pequena dos três, agora com 3 anos, anda há um ano a dizer: “Eu sou gande. Eu não sou pequenina, eu sou gande“. A sua necessidade de afirmação perante os irmãos mais velhos é tão forte que ela não tolera ser tratada como a bebé que é. Nesse esforço de afirmação pessoal as crianças estão muitas vezes na “fronteira da legalidade”. Algumas vezes descaradamente, outras com hábil subtileza, tentam ultrapassar os limites que lhes são impostos pelos pais. É neste fio de navalha que muitas vezes balança o processo educativo e formativo.

Os pais, como educadores que são, e amando os filhos com um amor incondicional, estabelecem limites e valores que sabem ser no melhor interesse das crianças. Estas, por seu lado, olham para esses limites como uma restrição intolerável à sua liberdade. Criança: “Mas, porque é que não me deixas estar? Nunca posso fazer nada“! Pai: “Porque correr em cima de um muro alto não me parece ser muito boa ideia!” A disciplina imposta pelos pais tem vários propósitos:

  1. Proteger o filho dos perigos. As crianças não são capazes de avaliar bem os perigos e consequências das suas acções. Por essa razão os pais proíbem determinados comportamentos para a sua segurança. Isto não é estragar a diversão. É uma prova de Amor.
  2. Garantir as melhores condições de desenvolvimento. Comer os vegetais, deitar cedo, tomar banho, ir à escola e fazer os TPC pode não parecer a melhor coisa do mundo, mas, um crescimento saudável só é possível quando fazemos estas coisas detestáveis. Esta também é uma prova de Amor.
  3. Preparar para o futuro. Ensinar a ser responsável, verdadeiro, bom amigo, confiável, humilde, paciente, perdoador, altruísta, compassivo, fiel exige um grande esforço educativo dos pais – por palavras e, mais importante, por exemplo. Mas, essa disciplina criará adultos equilibrados emocional e psicologicamente, capazes de amar o próximo, sábios em lidar com as frustrações e prontos a passar à geração seguinte os valores éticos e morais que receberam dos seus pais.

Deus também revela o Seu carácter e as suas intenções para nós quando nos disciplina. Quando falo de disciplina não quero significar a dimensão correctiva e/ou punitiva da acção. Disciplinar é muito mais do que isso. É ensinar e instruir. É conformar às regras – àquilo que é correcto, justo e verdadeiro. É trazer ordem ao caos.

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Tal como as crianças nós nem sempre apreciamos este trabalho de Deus. Tal como os pais o Senhor planeia amorosamente o melhor para nós. As acções reflectem o carácter e o que está no coração. Por vezes, os pais perdem a paciência com a rebeldia dos filhos. Gritam. Explodem. Amesquinham. Batem violentamente. Tudo isso vem da frustração acumulada e de um carácter falho. E, Deus? Como é que Ele reage à nossa desobediência obstinada e a rebeldia arrogante dos nossos corações?

Se as acções reflectem o carácter, então, a reacção de Deus é cheia da Sua glória. Para entendermos melhor vamos considerar o texto de Isaías 1.  Não esqueças que caminhamos para a Resolução 268, a decisão que afectará mais profundamente o teu relacionamento com Deus e o teu posicionamento no Mundo. Por isso, vamos começar a familiarizar-nos com o contexto.

Deus levantou Isaías como profeta em tempos conturbados. A nação de Israel tinha-se dividido em duas após a morte de Salomão. O Reino do Norte, conhecido por Israel, composto por dez tribos. E, o Reino do Sul, conhecido por Judá, composto pelas restantes duas. Seguindo a obstinação dos seus reis ambos os reinos se desviaram do Senhor, embora o Reino de Judá experimentasse reavivamentos sucessivos por influência de alguns bons reis.

Quando Isaías começa o seu trabalho de profeta o Reino de Judá estava numa situação difícil. A inimizade entre os dois reinos irmãos colocava-os em guerra permanente, e agora, o rei Peca, do reino de Israel fez uma aliança com o rei da Síria, Rezim, para juntos destruírem a Judá. (Is.7:1) A razão deste perigo militar era maior do que a rivalidade entre eles ou a ânsia de poder da Síria. Na base de tudo estava o plano soberano de Deus para disciplinar o Seu povo.

Desde há muito tempo Deus falava ao povo. Considera o que Deus lhes dizia:

  1. Deus expôs o pecado deles (Is.1:1-15). Deus acusa-os de rebelião, falta de entendimento, iniquidade, malfeitorias, corrupção, blasfémia, apostasia e hipocrisia.
  2. Deus convida-os ao arrependimento (Is.1:16-20). Se eles se arrependerem e demonstrarem isso pelos seus actos, Deus será misericordioso e restaurará todas as promessas. A comunhão entre eles será preciosa, como se nunca houvessem pecado.
  3. Deus adverte-os sobre o julgamento (Is.1:20-2:11). Apesar de toda a misericórdia e graça disponível para eles em Deus, se não se arrependessem a única expectativa que restava era a de enfrentar o Juízo e a Ira de Deus. E que grande seria essa ira.

Em toda a reacção de Deus ao pecado do Seu povo nós vemos o resplendor da Sua glória. Ele mostra ser Santo ao não tolerar o pecado deles. Mostra ser Todo-Poderoso, Omnisciente e Omnipresente ao revelar todos os seus pecados, ainda que eles bem se esforçassem por escondê-los. Deus revela toda a Sua Paciência e Longanimidade ao reter a Sua ira e convidá-los ao arrependimento. A Sua Misericórdia, Graça e Amor são o esplendor do Perdão que lhes estende. A Sua Justiça satisfeita na Ira que destrói os inimigos, vindicando assim a sua Santidade que não pode ser beliscada. Que magnífica perfeição divina! Deus mantém-se sempre fiel a si mesmo.

Como é que conhecer a Deus desta maneira influencia o meu relacionamento com Ele e minha visão do Mundo? Duas propostas:

  1. Saber que tudo o que Deus faz na minha vida tem um propósito disciplinar para me conduzir à “estatura perfeita de Cristo” ajuda-me a aceitar a Sua vontade como “boa, perfeita e agradável”.
  2. Saber que Deus é fiel a Si mesmo em tudo o que faz leva-me a aceitar a correcção de Deus com humildade e responsabilidade.

E, tu? Que lições tiras da reflexão de hoje? Partilha nos comentários ou através do Facebook.

A face do Amor

Jesus e Pedro são os intervenientes da conversa mais introspectiva de toda a Escritura (João 21). Sentados na praia, Jesus volta-se para Pedro e pergunta-lhe: “Amas-me?”. Não sei de pergunta mais profunda do que esta.

praiaPedro lembrava-se seguramente das promessas de nunca abandonar o Senhor, ainda que lhe custasse a vida. Lembrava-se do aviso de Jesus acerca da traição. Lembrava-se da escaramuça no Jardim quando cortou a orelha a Malco. Lembrava-se de seguir Jesus de longe. Lembrava-se de estar sentado na roda dos escarnecedores. Lembrava-se de O ter negado. Três vezes. Lembrava-se do olhar de Jesus que encontrou o seu. Lembrava-se das lágrimas que chorou. (Lucas 22)

A pergunta de Jesus confronta-o com o passado incómodo, e ele sabia que não podia fugir mais. Diante dele estava Aquele que “sabendo que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim.” (Jo.13:1) Pedro conhecia a face desse Amor. O Amor que lhe lavou os pés (Jo.13:1-17). O Amor que partiu o pão e deu o cálice como símbolos de uma Nova Aliança (Lc.22:15-20). O Amor que prometeu uma comunhão eterna (Jo.14). O Amor que prometeu a virtude de uma nova vida (Jo.15). O Amor que enviaria o Consolador (Jo.16). O Amor que Se entregou à vontade do Pai (Lc.22:42). O Amor que Se entregou, em silêncio, ao desprezo dos Homens. O Amor que suportou a ira do Santo. (Isaías 53)

“Amas-me?” Pedro sabia o sentido do Amor que Jesus procurava no seu coração. Lembro-me de alguns episódios bíblicos que são o reflexo desse Amor.

1. O verdadeiro Amor conduz a um serviço extravagante.

Jacó serviu a Labão por 14 anos porque amava a Raquel (Gn.29). E, “lhe pareceu como poucos dias, porque muito a amava.”

Pensa no teu serviço a Deus como uma expressão do teu amor, e não como um fardo. Dessa perspectiva como respondes ao “amas-me?” de Jesus?

2. O verdadeiro Amor produz uma adoração extravagante.

A mulher pecadora que invadiu a casa de um homem religioso para lavar os pés de Jesus com lágrimas, enxugá-los com os seus cabelos, beijá-los incessantemente e ungi-los com óleo demonstrou uma profunda contrição de alma e um Amor suave que foi recebido por Jesus como adoração genuína. (Lc.7:36-50)

A quem muito foi perdoado muito ama.” A tua adoração, os teus afectos e emoções, as tuas atitudes revelam que medida de Amor e gratidão para com Deus?

3. O verdadeiro Amor entrega-se em sacrifício extravagante.

Certo dia, em tempo de guerra, o rei Davi solta um desabafo suspirando pelas águas da fonte às portas de Belém. Sem hesitações, e sem serem comandados a tal, três valentes da sua guarda arriscam as suas vidas invadindo o aquartelamento dos filisteus em Belém e trazem da água para o seu rei. Perante tal sacrifício Davi nem mesmo se atreveu a beber da água derramando-a como oferta de adoração ao Senhor. (2Sm.23:13-17)

No tempo pós-moderno de exaltação do EU em que vivemos a entrega sacrificial em favor do outro é a expressão máxima do Amor. Do que estás disposto a abdicar de teu em favor dos outros e da glória de Deus?

4. O verdadeiro Amor vive uma fé extravagante.

Desarmado pela pergunta insistente de Jesus, Pedro finalmente cede, e mostra a sua fraqueza dizendo: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo” (João 21:17) Tu sabes. Tu sabes quanto te amo. Sabes melhor do que eu próprio. Jesus responde-lhe: “Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras. E disse isto, significando com que morte havia ele de glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-me.” (João 21:18-19)

A fé extravagante não é a grande fé, mas sim a fé sincera, absoluta e rendida. Quando Pedro se despiu de toda a sua presunção e confiança própria entregando-se a Cristo, ele estava pronto para glorificar a Deus. Essa fé é a expressão do Amor.

Hoje, o Senhor Jesus Cristo pergunta-te a ti: “Amas-me?” Como vais responder a essa pergunta?

Gratidão

A palavra mais repetida por mim, ontem, foi sem margem para dúvidas, “Obrigado”! Todo o carinho demonstrado para comigo por causa do aniversário aqueceu o meu coração e despertou-me para a gratidão. Como ficar em silêncio perante o Amor?

Mostrar gratidão produz um impacto definitivo nos relacionamentos. Se fazes bem a alguém e essa pessoa te ignora ficas magoado, e tentado a retrair a benção da próxima vez. Mas, se perante o teu acto de Amor recebes como recompensa um simples “Obrigado”, o teu Amor aprofunda-se, firma-se, e renova-se em novas atitudes de bondade para com o outro.

O Amor de Deus é o único que não esmorece perante a nossa ingratidão. Porque Ele é Deus, e a essência do próprio Amor. Ainda assim, Ele nos desafia:

“… e sede agradecidos.”
Colossenses 3:15

Neste texto Deus desafia-nos a deixarmos para trás as coisas da velha natureza de pecado e a nos revestirmos das novas coisas de Deus, tais como, misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, perdão, amor e paz. Lembramo-nos sempre destas características do Cristão. Mas, logo de seguida, o Senhor acrescenta: “e sede agradecidos“.

A gratidão é fundamental à intimidade. Ela é a expressão de reconhecimento da importância do papel do outro na nossa vida. Sejam os nossos familiares, amigos, colegas, ou, Deus.

Tira 5 minutos do teu tempo. Revê o teu dia e encontra motivos de gratidão. Agradece às pessoas que abençoaram a tua vida hoje. Agradece a Deus. E, sente o Amor invadir a tua vida.

Há algum tempo atrás aprendi uma importante lição sobre a gratidão através do meu filho J. Podes ler esse relato aqui.

Deus te abençoe.

Ser Pai

Das três vezes que soube que ia ser pai o meu pensamento e oração foram: “Ó Deus, dá-me Graça!”. Quando penso na paternidade vejo mais além do que o amor embevecido, ou o orgulho pelos feitos trapalhões dos filhos pequenos, ou da preocupação pelo seu futuro e bem-estar. Há um texto que tem sido o meu mote desde que sou pai:

“Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te.” (Dt.6:4-7)

A primeira coisa que me chama a atenção é que a minha responsabilidade como Homem é buscar a Deus, e aceitar a Sua soberania sobre a minha vida. Viver isto é amá-lO de todo o coração, ou seja, com o meu entendimento, consciência e determinação. Amá-lO de toda a alma, com todo o meu ser, minha personalidade, desejo, emoções e paixão. Amá-lO com todas as forças, até ao limite da minha capacidade, abundantemente.

A minha segunda responsabilidade nasce na família, e na paternidade. A ideia por detrás de ensinar pressupõe muito mais do que um simples convívio familiar, brincadeiras com os filhos, ensinar a orar pelos alimentos e levar os filhos à Escola Dominical. É um ensino incisivo, perfurante, que aguça o outro. Como se tatuasse no coração dos filhos a vivência que tenho com Deus.

Essa vivência deve permear as minhas conversas, os avisos, a disciplina, os comandos e o meu louvor. A minha casa deve ser construída como um lar. Para isso, é necessário que eu saiba ficar e permanecer. Estar disponível para a esposa e os filhos, trazendo a estabilidade que todos precisam.

Mas, o exemplo deve sair de portas. O meu carácter moral deve manifestar-se em todo o lugar. No emprego. Com os amigos. Na estrada. Na igreja. Até mesmo quando descanso. O meu tempo de lazer deve trazer glória a Cristo. E, quando necessário, devo erguer-me para defender as minhas convicções e fé. É no momento da prova que o carácter se confirma.

Perante tal exemplo chegará o dia em que o filho se voltará para o pai e perguntará: “Que significam os testemunhos, e estatutos e juízos que o SENHOR nosso Deus vos ordenou?” (vs. 20) Ser pai é assumir a benção de edificar uma vida. O maior feito que posso alcançar como pai será conduzir os meus filhos ao temor do Senhor.